O Que Querem Estas Feministas?

Fatalmente, com tons variáveis de impaciência, esta pergunta faz coro sempre que o olho-de-boi da opinião pública cai sobre uma manifestação pelos direitos das mulheres, uma acusação de assédio, a contestação de uma (fraca) sentença de violência doméstica. Lá estão estas feministas; o que querem estas feministas? Se a igualdade está consagrada nas leis, se a maior parte dos homens até são boas pessoas, se já há mulheres em cargos de direção (e três deputadas nesta nova legislatura!), se até já se ensina estas coisas nas escolas, para quê todo o ruído?

Aquilo que as feministas querem é tão simples que não há forma de vida, da ameba ao fiscal da EMEL, que não o queira: querem viver as suas vidas.

Coisa que, como nem o olho-de-boi da opinião pública pode ter deixado de reparar esta semana, não é evidente. Esta segunda-feira, dia 25 de novembro, assinalou-se o dia internacional para a eliminação da violência contra as mulheres, e não houve forma de vida, da ameba ao espetador da CM TV, que não se desse conta dos números em Portugal. 25 mulheres (que deixaram 45 crianças órfãs, note-se), 7 homens, uma criança, a quem foi retirado este mais simples dos direitos – o de viver as suas vidas.

Mas enveredemos agora, só pelo gosto de conjeturar, em argumentos tão falaciosos que nem uma ameba nem um apoiante das touradas os poderiam levar a sério, se não fosse pelo simples gosto de discutir. Consideremos como argumento a ideia de que estas 33 pessoas, todas assassinadas em contexto de violência doméstica, poderiam evitar a primeira evitando a segunda; aplicando o argumento apenas às mulheres, neste cenário, consideremos a premissa: para não ser assassinada pelo marido ou companheiro, uma mulher pode sempre não ter marido ou companheiro.

(Só para que conste, já estive à mesa de café com algumas amebas que argumentavam de forma semelhante: para não ser vítima de violência doméstica, basta à mulher saber escolher o companheiro, ou deixar a relação ao primeiro sinal de agressividade; que não podem ser consideradas vítimas de violência doméstica mulheres inteligentes, educadas e independentes; ou que, sendo a violência doméstica indefensável, há mulheres que não param de implicar com os companheiros. Mas as amebas têm desculpa para dizer estas coisas: só têm uma célula, e era pedir demais que conseguissem ao mesmo tempo estar num café e argumentar de forma coerente. Alguns dos meus melhores amigos são amebas. Nada contra.)

Seja. Consideremos então uma mulher sem marido ou companheiro. Postulemos que é uma mulher estatisticamente mediana e que, assim sendo, obedecendo ao estatisticamente disposto para as pessoas da sua idade e posição social e geográfica, sai, de vez em quando, à noite –  vai aos santos, ao baile funk, a uma discoteca. Temos em memória muito recente os casos particularmente abjetos de violações – em Pamplona , no Rio de Janeiro, no Porto.  Uma vez mais, um atentado ao mais simples dos direitos – o de viver as suas vidas com integridade (sim, a integridade é inerente ao direito à vida, os direitos fundamentais são, em este e outros aspetos, como o Kinder Surpresa).

Mas, dirão as amebas e os comentadores desportivos, um pouco fartos da conversa, uns porque querem mesmo, mesmo falar de futebol e outros porque, sendo unicelulares, têm muito mais que fazer com a célula, tu mesma falaste em estatística, por isso, recorramos a estatísticas: estes casos de femicídio e de violação são exceções. A maioria das mulheres não são violadas nem assassinadas pelos companheiros ou maridos. O que corresponde, felizmente, à verdade. Mas, como qualquer ameba ou terrorista sabe, basta um número reduzido de práticas de violência extrema para se propagar o terror e levar uma parte (pequena ou grande) da população a coibir-se, por medo, de certas coisas. E não são precisos muitos casos de violência para serem impostas medidas de precaução (como recolheres obrigatórios), e nem todos os legisladores têm a presença de espírito de uma Golda Meir que, face a uma série de violações ocorridas em Israel, ouviu a proposta de impor um recolher obrigatório para as mulheres e retorquiu: «Porquê para as mulheres? São os homens que andam a violar.» Lá estás tu, diz a ameba, com a Golda Meir, e se começamos a discutir Israel, frito a célula toda. Para além de serem exceções, estes casos não ocorrem num vazio; têm lugar no seio de sociedades de direito, onde os responsáveis são apanhados, julgados e punidos devidamente, de forma igualmente exemplar, deixando claro à sociedade civil que as instituições estão vigilantes e defendem os direitos dos seus cidadãos (grafia não inclusiva não supondo qualquer má fé).

A sério, ameba? (O comentador desportivo entretanto está a ignorar-nos e foi ao insta). Vejamos então os casos das sentenças dos violadores de Pamplona e do Porto (nos links acima), ou da sentença emitida pelo abrir-aspas-juiz-fechar-aspas Neto de Moura. Queres exemplo mais gritante das instituições a falharem as cidadãs que deviam proteger? Até uma ameba compreende e, se tivesse cabeça, baixá-la-ia, em pesar, ao reconhecer a mensagem que transmite a quase impunidade destes agressores, violadores e assassinos: que a violência contra mulheres é uma opção viável.

A este ponto, o comentador desportivo foi-se embora e para o lugar dele veio um caçador, de boné e um molho de perdizes às costas, e com um pointer amoroso ao lado. E diz ele, que a ameba continua cabisbaixa, ponderando o horror daqueles casos (que isto não são coisas suaves de discutir), e também com um pouco de medo do caçador, porque, enfim, é uma forma de vida e a caça consiste basicamente em acabar com as mesmas: vá, o mundo não é perfeito, há loucos, há tarados, há gente má, e alguma dessa gente acaba em juiz. As pessoas falham, as instituições também. Mas, diz ele folheando discretamente um livro do Jordan Peterson que tinha num dos bolsos, iniciativa individual, o estado não é papá de ninguém, fazer por si, bater punho, etc. Vamos parar com a vitimização. Há três deputadas nesta legislatura, e (inserir aqui um número vago mas retoricamente sonoro se for mais alto que dois) de mulheres em cargos de direção. As mulheres são tão capazes como os homens de fazer uso do capitalismo para aquilo que ele serve de melhor: proteger os ricos daquelas chatices da vida que acontecem sobretudo aos pobres, como morrer e ser vítima de violência e depender das instituições públicas (aqui ele fez um refolgo de desdém). O que impede as mulheres de trabalhar, trabalhar muito, ser empreendedoras, acumular riqueza, e garantir, assim, a sua integridade e o tal direito a viver a sua vida – melhor ainda, a sua rica vida?

Bom, digo eu, tentando não me distrair com a fofura do pointer, nada. No mercado livre, é verdade que nada impede ninguém de acumular riqueza. É esse o atrativo do mercado livre. Não parece haver nada a impedir toda a gente de enriquecer. Mas, como esse debate é demasiado amplo para ser resolvido satisfatoriamente por uma feminista, uma ameba, um caçador e um pointer no espaço de uma breve crónica, fico-me por comentar que nunca nada impediu as mulheres de trabalhar. Aliás, em toda a história da civilização, às mulheres nunca faltou trabalho; o que lhes faltou foi remuneração e repouso –   trabalho sempre sobrou. Mas mesmo no contexto do trabalho remunerado de forma igual, que é aquele em que supostamente vivemos, mesmo com medidas legais para garantir a paridade salarial, as mulheres continuam a ganhar menos 22,1% em Portugal, 16% a nível europeu e 24% a nível mundial, do que os homens, e o risco de pobreza é superior para as mulheres em todo o mundo. Sei que o caçador vai fugir para o argumento do “work smarter, not harder”, por isso concedo que sim, algumas mulheres conseguirão alinhar oportunidades, bater punho e acumular riqueza, mas ainda assim terão de começar a partir de uma posição de desigualdade relativa.

Encolhemos todos os ombros, até a ameba, que não os tem.

É isso, portanto, voltando à pergunta inicial. É isso que as, estas, feministas querem. Viver as suas vidas. Como as amebas, os fiscais da Emel, os espetadores da CM TV, os apoiantes das touradas, os comentadores desportivos, os caçadores, e tu e eu, querid* leitor*.

Nota: Nenhuma ameba, fiscal da EMEL, espetador da CM TV, apoiante de touradas, comentador desportivo, caçador ou Miguel Gonçalves (uau, lembram-se dele? Googlem, googlem!) foi ferido na escrita deste artigo. Não digo “nada contra” porque, pronto, tenho alguma coisa contra, exceto contra as amebas e os comentadores desportivos – não gosto nada de futebol, nada contra quem goste, só contra a quantidade desproporcional de tempo e recursos e atenção mediática que se lhe dedica, mas são vicissitudes de uma sociedade livre, é mesmo assim. Tenho amigos que fazem caça e outros que vêm a CM TV. E são boas pessoas e sempre abertas ao debate, que é o que é preciso.

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