Receita de um bom “fillet mignon”

Ingredientes:

– 3 ou 4 homens em torno de uma mesa
– à-vontade suficiente para serem “humoristicamente” machistas;
– tempero a gosto.

Modo de Preparação:
Sente-se à mesa, deixe-os falar e vá tirando notas mentais. O gostinho final vai valer por cada vez que morder a língua.

Saí ontem com uma amiga e jantámos num tasquinho. Acabadas de chegar sentamos a uma mesa e, logo a seguir, chegaram uns srs. já de alguma idade que prontamente nos pediram desculpa por ficarem de costas: “Não há problema nenhum”, dissemos nós. E até agora tudo bem.
Não satisfeito, o sr. directamente atrás de mim, senta-se e pergunta (braço em cima das costas da cadeira): “então e vão dançar?”. Nós: “não” (silêncio).
Começámos a comer. “Então e estão aqui sozinhas?”. Nós: “Não, estamos uma com a outra.”
Íamos conversando entre nós enquanto jantávamos, não que isso lhes fosse perturbador a cada interrupção de conversa: “então e vêm cá muitas vezes?”. Nós: “não e provavelmente não voltamos mais”.
Leitores mais atentos a esta hora perguntam-se: “então, mas ninguém os pôs em sentido com dois berros?”. Não leitores, passo a explicar: eu gosto destes momentos sociológicos e antropológicos, fazem-me pensar e dão-me material de escrita.
A minha amiga a dada altura diz-me: “Desculpa, só cá tinha vindo com (nome do companheiro) e nunca tinha acontecido nada disto”.
Respondi-lhe que como muitas vezes em tasquinhos, a correr, entre reuniões, aulas ou outras coisas e que reconheço a subcultura em questão. E que tal nunca lhe tinha acontecido – coloquemos-nos naquele local, pela simples razão que obviamente, durante a vida, já lhe aconteceu e ela tem essa noção – por ser uma subcultura exímia no respeito pelo macho.
“Naturalmente” que, apesar da falta de resposta, ou resposta seca, no final ainda nos perguntaram se não nos podiam pagar um gin. Que devíamos ter bebido. De borla. E vindo embora a seguir.

No início deste mês saí com uns amigos. Homens, de esquerda, criativos, educados. Falava-se em homens…

–  Pessoas – disse um deles a dada altura, olhando para mim e sorrindo condescendentemente, depois de um “já sei que a Paula vai reagir desta forma!”

… e de mulheres que pudessem juntar-se a um projecto. Havia, como há quase sempre, falta de representatividade, não só no grupo, como no projecto. Era preciso mulheres que pudessem, também elas, contribuir.

– E aquela tua amiga que é gira e também escreve? – disse um deles, como se escrever fosse secundário, contanto que fosse bonita.

Numa outra conversa com um amigo esta semana, dizia-me ele que as mulheres têm sorte, hoje em dia, com os homens. Dizia ele que, em comparação com as gerações anteriores, esta geração era o “filet mignon” (a melhor parte do bife, explicava ele) dos homens. Comparava a geração actual com a geração anterior, mais machista, menos propensa a partilhar as tarefas em casa, tomar conta dos filhos, respeitar a opinião das companheiras, etc.

Hoje contava o episódio do restaurante relatado acima a um amigo que prontamente me disse: “Ah, mas não foi assim tão mau. Até foram simpáticos.”

Não é de todo assim. É uma intrusão. Um abuso. Um achar que se tem direito à interrupção, a importunar, sobre as restantes, sobre o seu espaço.
Hoje em dia a sociedade é (tendencialmente) menos machista, mas quando alguém o diz é, regra geral, uma forma de negar o seu próprio machismo.
Não gostamos, mesmo, de nos ver ao espelho.

Há um machismo discreto e escondido, quase hipócrita, em que parece “mal” ser machista e, por isso, é preferível procurar a igualdade no discurso e em algumas acções, enquanto se mantêm secretamente valores não tão igualitários assim.

São homens que se assumem de esquerda e que mantêm uma postura machista e negacionista, não se assumem como machistas, não têm em conta o silenciamento que produzem e, quando confrontados com a situação, dizem com ar ofendido, que era uma piada, que as mulheres não têm sentido de humor. Como se negam a avaliar as suas próprias mundividências, os micro-machismos perpetuam-se.

O discurso é distorcido, a conversa é dirigida para outro tema e o único propósito é desconsiderar o que se está a ouvir. É encarado como um ataque. É uma questão secundária, que deve ser tratada nos termos determinados por eles, no tempo deles e depois das questões que consideram mais relevantes. Li algures que o problema da luta feminista era não ser feita por homens. Era uma piada que, infelizmente, tem piada porque é verdade.

Quando pedi a algumas amigas para comentarem estas experiências, quase todas tiveram medo de passar por descontentes, loucas e exageradas, porque afinal:
– Ele até ‘ajuda’ em casa; ou
– Ele até nem tem problemas em lavar a louça ou cozinhar; ou
– Ele é o primeiro a atacar politicamente discursos misóginos ou sexistas, etc…

É difícil atacar um homem que parece ter atitudes tão nobres, dizia-me uma amiga, nenhum deles vai ser convencido a repensar o seu sexismo ou mesmo a reconhecer que tem comportamentos sexistas.

No fundo existe esta crença social que as mulheres exageram, que não veem a evolução e o progresso que os homens foram capazes de atingir hoje em dia, que não somos capazes de valorizar a desconstrução e perda de privilégio que têm vindo a fazer.

– As mulheres querem tudo e querem tudo já – insistia um outro amigo

– E os homens, coitados, que já não basta terem de desconstruir o machismo diário a que a sociedade os expõe, ainda têm de ouvir estas queixas, como se não fossem “esforçadinhos” o suficiente, não é? – disse-lhe eu.

Retorquiu de sorriso aberto:
– Vá lá, admite que até merecemos umas pancadinhas nas costas!

No fundo, os homens procuram uma “pancadinha nas costas”. Como se devessem ser premiados por não serem idiotas, por serem respeitadores, por serem menos machistas que os seus pais e mães, por terem melhor acesso à educação e a uma visão da sociedade mais igualitária. Uma espécie de medalhinha por bom comportamento:
– Vá, ponham-se todos na fila, vamos dar um doce a quem hoje conseguiu olhar para o seu igual, como igual.

(Actualizado. Texto inicial publicado em Azmina)

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