Devolvam-nos as nossas vulvas

Este fim de semana assisti ao lançamento, em Évora, do livro da Lisa Vicente: O Atlas da V.

A livraria Fonte de Letras estava cheia e o ambiente era de curiosidade e alegria. Durante a apresentação, a autora – ginecologista, obstetra e sexóloga clínica – destacou vários tópicos que aborda no livro e ofereceu ao público outros tantos factos, que são maioritariamente invisíveis nas conversas que temos ou nos meios de comunicação. De tudo o que se falou nesta sessão de apresentação, deixo-vos o que me causou mais impacto e que mais me incomodou (roçando em alguns momentos a raiva e a incredibilidade):

  1. A maioria das mulheres acredita que todas as vulvas são exactamente iguais;
  2. Lisa Vicente, falou sobre a questão da padronização e higienização da imagem aceitável para uma vulva, que ela denomina de vulva light, e que é não só anatomicamente incorrecta, como leva a situação de vergonha e trauma, quando a vulva não corresponde ao estereótipo institucionalizado e provocando um relacionamento extremamente negativo com esta parte do corpo;
  3. Numa ida ao consultório, quando convidadxs a observar ao espelho a sua vulva, a maioria dxs pacientes recusa-se e tem uma reação que envolve repulsa;
  4. A autora foi aconselhada a deixar cair o termo Vagina e Vulva no título do livro. O uso destas palavras dificulta o acolhimento positivo e a divulgação do livro, por parte dos meios de comunicação, que consideram – em pleno século XXI – estas palavras feias, que envolvem o nojo e o desconforto de quem as lê/vê/ouve;
  5. Continuamos a acreditar – ou é-nos imposto – no sistema de desejo sexual que remonta aos anos de 1970;
  6. As representações do corpo do sexo feminino estão obsoletas e promovem um grande mal-entendido anatómico sobre o mesmo;

Ao longo da apresentação do livro, só me vinha um pensamento à ideia: F…! Até a porra da vulva e da vagina o patriarcado fez questão de padronizar, idealizar, de encontrar uma forma de minorizar, de provocar um desconforto e vergonha, e proliferou a interiorização de que uma vulva é uma coisa suja, feia, da qual temos vergonha e horror em observar. Quem não corresponde ao padrão patriarcal de vagina e vulva perfeita, sente-se de tal forma desconfortável e insatisfeitx que recorre à cirurgia plástica, para padronizar a sua vulva e torná-la “perfeita”. Estima-se que, em 2017, cerca de 138 mil mulheres, de todo o mundo e de todas as idades, se tenham submetido a intervenções cirúrgicas de remoção de pele dos lábios vaginais para correção estética (labioplastias e ninfoplastias). 

Claro que estou a dramatizar um bocadinho, e a relação das pessoas com a sua vulva e vagina começa a ser diferente, mas ainda assim… Devolvam-nos as nossas vulvas! Devolvam-nos as nossas vaginas! As verdadeiras. Na sua diversidade.

“Lembrem-se de que os lábios vaginais são como qualquer outra parte do corpo: única. Diferente de todas as outras que existem.

Muitas vezes as pessoas só conhecem a imagem da vulva “recortada”, “certinha”: grandes lábios pequenos, pequenos lábios finos e “alinhadinhos ao meio”. Uma “vulva light” dos livros de Biologia e das páginas com muito Photoshop. Mas na vida real existem muitas outras, confortáveis e bonitas”

— Lisa Vicente em O Atlas da V

p.s. Se ficaram com curiosidade, deixo-vos AQUI uma entrevista que foi feita à Lisa Vicente sobre o seu livro O Atlas da V (editora Arena).

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