Monstruação

Hei-de voltar muitas vezes a este tema, tenho a certeza. Aliás, já tinha algumas notas tomadas para falar em breve da «pobreza menstrual» – números muito grandes e muito reais sobre meninas e mulheres (sobretudo na África sub-sahariana e na Ásia) que, no século XXI, não vão à escola ou não trabalham por falta de acesso a pensos higiénicos e/ou água com que se lavarem. Além dessa dramática falta de acesso a bens tão básicos, muitas dessas meninas e mulheres ainda enfrentam um outro fardo, igualmente grande ou ainda maior: a ideia cultural de que a menstruação é uma maldição – para as próprias e para a família/sociedade.

Em muitos países, as meninas e as mulheres menstruadas vêem-se banidas das actividades quotidianas durante os dias do período. Algumas, como acontece no Nepal, são mandadas para cabanas de animais, onde são fechadas por familiares. Algumas, como aconteceu a Parbati Buda Rawat, de 21 anos, morrem lá. Segundo noticia hoje o Público, quis aquecer-se (imaginem Dezembro no Nepal, num casebre de pedra e barro) fazendo uma pequena fogueira e morreu asfixiada. Não querendo fazer pouco da tragédia, arrisco dizer que asfixiada já ela estava. Foi o cunhado que a mandou para a cabana. O cunhado de 25 anos de uma mulher de 21 anos teve o poder de a mandar fechar-se. Um poder que lhe foi conferido pela sociedade, sociedade essa que, embora proíba tal prática desde 2005, condenará o cunhado a um máximo de três meses de cadeia.

Neste momento estou grávida de uma rapariga. Com poucos meses de gestação, ela já tinha dentro de si todos os óvulos que os seus ovários libertarão em vida. Ou seja, estou grávida também dos meus netos, se vier a tê-los. Não sei de nada mais miraculoso do que o ciclo da vida.* A menstruação é um dos símbolos desse ciclo – ela própria um ciclo – e pode durar cerca de 40 anos (dos 12 aos 52, digamos), ou seja, aproximadamente metade de uma existência.

Ao contrário do que disse Freud (cavalheiro sempre muito equivocado), nenhuma mulher tem inveja do pénis (do poder adicional a que esse pénis dá acesso, isso talvez!), mas não tenho dúvidas de que grande parte da misoginia nasce da inveja do ovário. Todos viemos de um ser portador de ovários e útero, mas só os seres portadores de ovários e útero podem gerar vida, o acto criador primitivo. Pelos vistos, não falta quem queira vingar-se disso. E é assim que a perversidade humana (em todos os pontos da história e da geografia) consegue tornar uma coisa bonita – a menstruação, quando o óvulo não é fecundado (ou a gravidez, quando é) – numa vergonha, num tabu, num pecado, numa culpa a expiar, num estado a esconder, num alvo de chacota, num motivo para eufemismos, num segredo, num mau prenúncio, e assim por diante. Isto é que é conspurcar a pureza.

Muito pior do qualquer dor menstrual é a dor de alma de vermos a menstruação – o fenómeno natural mais natural do mundo – ser diabolizada. Pior ainda, quando ela, sinal de vida, acaba a provocar a morte.

Que o tristíssimo fim de Parbati Buda Rawat sirva, ao menos, para falarmos mais disto.


*Acharia o mesmo se não pudesse ter filhos.

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