Ca nojo

Sem que família e sociedade me tivessem dito nada explicitamente sobre o assunto, o infinitamente poderoso conteúdo latente bastou para crescer com vergonha (uma vergonha banal, aceite como normal) do corpo e de tudo o que ele implicava.

Nesse mundo, uma senhora, mesmo que tenha oito, doze ou dezoito anos, não dá arrotos audíveis, nem dá puns. Reprime-se e não se pensa mais no assunto. Não se vai à casa-de-banho com amigas, puxa-se o autoclismo enquanto se faz xixi para que não se ouça o barulho, criam-se complexas estratégias com a toalha para não mostrar a pele no balneário, usam-se «pensinhos diários» (é uma ferida?) e, à porta bem fechada, faz-se o que se tem a fazer o mais rapidamente possível, deixando tudo bem arejadinho para não ofender o vizinho. Este padrão da higienização total, da remoção do odor-associado-ao-pecado – imposto 99% das vezes, ou com 99% mais intensidade, às mulheres – é doentio.

Devagarinho, fui percebendo que mamífero cheira e faz barulho e tem pêlo, mesmo. Por vezes, em casos agudos, pode ser desagradável, mas ainda é natural e, felizmente, tem uma solução simples ou não precisa de solução.

Hoje, se o arroto vem, não o contenho com pressa e orgulho (também não o celebro, é apenas um arroto), se dou um pum (e homens e mulheres dão-nos na mesma quantidade, há estudos que o comprovam), já não preciso de um buraco para me enfiar, é só um pum. Essa Liberdade foi conquistada a pulso e jamais tenciono abrir mão dela.

E, como talvez já tenham percebido, não estamos apenas a falar de puns e arrotos. Sons, cheiros, excrescências, pêlos têm ligação directa com vergonha, culpa, paranóia, poder, dominação, injustiça. Tanto de forma simbólica como de forma literal. Hoje, felizmente, recuso a **obrigação** de existir sem cheiro, de ser uma «mulher discreta», bela, recata e do lar. Sou um mamífero como os outros e uma cidadã de pleno direito.

E foi por isso que me passei quando vi na SIC Mulher (pois) este anúncio sobre Princesas que Não Fazem Cocó: https://www.youtube.com/watch?v=TNSIz5nZ8e8

Porque a mulher deve ser como uma boneca oca, um manequim de loja, alguém sempre preocupado com as expectativas alheias, sobretudo as masculinas, que gasta 7 € (sim fui ver, e não é espectacular?) para garantir que ninguém sonha que ela pode ter sequer vontade de ir à casa-de-banho, que nega a sua natureza. Isto não é só absurdo, é muito sintomático.

Há que denunciar e resistir a este disparate com todas as armas que se tiver ao dispor. Ir à casa-de-banho sem sentir vergonha pode ser um gesto de rebeldia. Quem diria? Comecemos por aí. Em tempos de decisões judiciais criminosas, o gesto mais pequeno ajuda.

#comamfeijões #cocófeminista

PS: até o «Hollywood hottest director», à la Harvey Weinstein, aparece no anúncio, a completar o quadro [e, ui, as cacas dele devem ser perfumadíssimas]. Não há spray que tire o mau-cheiro de gente amoral que faz marketing com a vergonha, que perpetua mentiras e estigmas em nome do lucro. Isso sim é um nojo.

Um pensamento sobre “Ca nojo

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