Ativistas antes de nós

Pensamos que estas coisas dos ativismos são muito modernas. Acreditamos que essa grande excentricidade de se ser vegetariano é coisa recente, manias do século XXI. Ou que assumir-se lésbica e viver com a companheira é muito millennial. Só que não. Nada disto são coisas moderninhas, são lutas velhas, têm mais de cem anos. A diferença está na liberdade que vamos conseguindo alcançar. Deste século é só a forma como vamos conseguindo combater o patriarcado e a mentalidade instituída. Com passinhos de bebé, vagarosamente e sem pressas, que o patriarcado não quer perder o poder e a mentalidade dá muito trabalho – e leva muito tempo – a mudar. Mas lá vamos conseguindo fazer valer alguns direitos para todxs. Para a frente é que é o caminho, e precisamos de força, que a estrada é longa, alcatroada e esteve à torreira do sol e nós lutamos descalçxs.

Hoje decidi trazer-vos um texto do meu primeiro livro infanto-juvenil, Portuguesas com M Grande, publicado em outubro de 2018 pela Nuvem de Tinta e com ilustrações mais que maravilhosas da talentosa Cátia Vidinhas. Quero falar-vos sobre uma pioneira fantástica, vegetariana, lésbica, ativista dos direitos dos animais e transgressora de convenções sociais: Alice Moderno (Paris, 11 de agosto de 1867 — Ponta Delgada, 20 de fevereiro de 1946)

O latido rouco daquele pequeno cachorro comovia-a sempre. Achava que as suas lambidelas na cara, molhadas de carinho, tinham propriedades mágicas e divertiam-na como nada no mundo. Não compreendia como as pessoas podiam ser tão cruéis e maltratar animais, tão indefesos e bondosos. Foi por isso que, quando cresceu, fundou a Sociedade Micaelense Protetora dos Animais, abraçando de alma e coração, e de uma forma pioneira, a luta pelos direitos dos animais em Portugal em 1911.

Desde muito jovem que Alice mostrou ser uma mulher à frente do seu tempo: foi a primeira rapariga a frequentar o ensino liceal em Ponta Delgada e, mais tarde, já adulta, trabalhou no negócio da sua família como agente de seguros. Além disso, era professora particular, jornalista e escritora. Numa época em que as mulheres eram, legalmente, propriedade dos pais e, depois, dos maridos, Alice saiu da casa da sua família para ir morar com uma amiga, e vivia sem estar dependente de ninguém, quebrando todas as tradições e convenções sociais da época.

Alice tinha um coração enorme que palpitava por paixões muito diferentes, mas sempre assentes no respeito, na igualdade e na benevolência para com o próximo. A envolver-lhe o coração tinha um grande laço de rebeldia que se libertava sempre que Alice infringia publicamente as regras impostas pela sociedade, provocando escândalos e burburinho à sua volta. A sua imagem de marca era o seu cabelo, que usava curto, e fumava em público. Contudo, não era o cabelo curto o que mais chocava a sociedade da ilha de São Miguel, nos Açores, do início do século xx, mas, acima de tudo, o seu amor por Evelina. Naquela época, as pessoas acreditavam que a homossexualidade era uma doença e ostracizavam quem decidisse, abertamente, ter uma relação amorosa com outra pessoa do mesmo sexo. O facto de estas mulheres se amarem e viverem juntas era visto de forma tão escandalosa e preconceituosa que, depois de Alice e de Evelina morrerem, tentaram apagar este amor das suas biografias. Mas até na morte foram mais fortes que o preconceito e continuam ainda lado a lado no mesmo jazigo do cemitério de São Joaquim em Ponta Delgada.

Alice viveu uma vida de transgressões e nunca deixou que o preconceito a impedisse de viver como queria. Foi graças à sua coragem e paixão por causas pioneiras que a sociedade açoriana foi abalada e confrontada com a nova mulher do século xx, teve acesso a mais e melhor educação e passou a proteger e respeitar os animais.

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