Pelas Pirralhas da História

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Ainda me lembro da primeira vez que votei. Uma fila não muito grande, na escola primária perto de minha casa onde eu não estudei, mas tinha estudado a pessoa minha irmã, dentro de um ginásio. Lembro-me de votar diferente da minha família, ter consciência dos assuntos que para mim eram relevantes (“fracturantes”, diziam uns; “putas, paneleiros e drogados”, diziam outros) e que me levaram a optar por aquele partido e não por outro.

Eu era a pessoa que não se envolvia em discussões políticas. Tinha os meus valores (longe de lhes chamar convicções ou ideologia) e guardava-os para mim. A política era um daqueles assuntos que cria divisões desnecessárias, “aborrecimentos” e debate. E era “uma catraia”, “uma menina”, “jovem demais”, “nem sabia o que dizia”, “tinha era de  estudar”, “crescer e aparecer”.

O debate político estava reservado a “quem percebia do assunto” o que na realidade, em minha casa, queria dizer quem berrava mais alto. E quem berrava mais alto era o “homem da casa”. Era melhor estar sossegada e manter a paz. E a paz era sagrada naquela casa. E a opinião era melhor guardar, porque nunca se tinha razão, o nosso argumento era sempre rídiculo e, no final, era irrelevante porque nos esperava o castigo. “O grande delito de ter opinião” reservava sempre a perda de um qualquer “direito”.

Por isso, votar e o voto ser secreto foi para mim uma pequena-grande rebeldia da maioridade, a seguir repetida na escolha da universidade e do curso. Hoje em dia, confesso, tenho alguma vergonha da descrição que vos fiz acima.

Eu sei que há quem se tenha orgulhosamente removido da política, seja qual for a sua razão (convenhamos que algumas melhor fundamentadas do que outras) – e quando digo isto não me refiro apenas ao voto: a democracia não morre (ou não deve morrer) no voto. Dizem que “é um direito”.

Mas esta “apatia” é sinal de privilégio: só pode escolher “não querer saber” quem sabe que o seu lugar na sociedade, os seus direitos e oportunidades, não serão (tão) – com grande enfoque no advérbio – afectados como os restantes. E com este “privilégio” vem grande responsabilidade (uma adaptação livre do Princípio do Peter Parker, aka Homem Aranha, do grande Stan Lee): a responsabilidade de se informarem, de reconhecerem a desigualdade, de ouvirem quem melhor reconhece essa desigualdade no seu dia-a-dia e de se fazerem ouvir, ao seu lado e contra ela. A política não deve nunca ser uma questão de privilégio, mas sim uma questão de empatia.

A neutralidade não é uma opção. Se a vossa opinião é gritada de uma posição de poder, não é opção. Se o vosso argumento é o único que consideram válido, não é opção. Se utilizam o debate como ataque, não é opção.

Eu, “pirralha”, me confesso, “uma jovem menina muito feliz, que está a caminho de um futuro maravilhoso e brilhante.”

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