O Ponto do Marido

Este tema assola-me, preocupa-me e deixa-me com os cabelos em pé. É um tema sobre o qual praticamente não se fala em Portugal, mas que é uma prática que acontece demasiadas vezes, seja de forma intencional, seja de forma acidental. Cada vez há mais relatos, vindos principalmente do Brasil, impregnados de violência machista: – Olhe mamã, vou deixá-la virgenzinha outra vez. Bem apertadinha. Seu marido vai adorar!

O Ponto do Marido (husband’s stitch em inglês) é uma das múltiplas formas de violência obstétrica que pode ocorrer a uma mulher. É feito em prol do (suposto) prazer sexual do companheiro da mulher que acabou de dar à luz uma criança — e uma mãe — e que só descobre o que acabou de acontecer quando, feliz e entusiasmada, volta a retomar a sua vida sexual. No primeiro minuto em que acontece a tão desejada e aguardada penetração, percebe que NUNCA mais voltará a ser a mesma mulher, que durante muito tempo – senão para o resto da vida – sentirá dores durante o acto sexual. Em prol do prazer sexual masculino. 

Para simplificar a definição: Ponto do Marido é quando após o parto a mulher necessita ser suturada devido a um rasgão na região do períneo para aumentar o canal de parto (procedimento médico denominado de episiotomia). Ao cozer este rasgão, x obstetra decide fazer mais pontos que os necessários, tornando a abertura vaginal mais pequena. Admito que podem ocorrer erros e que esse ponto ou esses pontos a mais não sejam feitos com intenção de apertar a vagina da paciente. Ainda assim, custa-me a crer que seja sem intenção.

Acredito que a maioria das mulheres não fala sobre este assunto, porque envolve muita frustração e muita vergonha. Espera-se que um casal volte à sua vida normal alguns meses depois de serem pais. Das novas mães espera-se que voltem a ter o mesmo desejo sexual que tinham antes, e que o sintam o mais depressa possível.

Admitir que não se voltou a ter uma vida sexual normal envolve desiludir toda uma sociedade que idealizou — e exige! — que com uma criança, nasce ao mesmo tempo uma super mãe, afetuosa, sempre alerta, perfeita, que consegue cuidar dx bebé e retomar a sua vida pessoal e sexual com uma perna às costas. 

O Ponto do Marido não torna apenas o canal vaginal mais apertado. Cada um desses pontos a mais torna mais apertado o coração, a coragem, a auto-estima e a força da mulher violentada. Contribui para um desgaste nos relacionamentos (que já são difíceis no pós-parto) e da saúde mental dos novos progenitores. Destrói por dentro a mulher, que cheia de culpa, não sabe o que fazer para que a sua vida volte a ser o que era. Para que o seu companheiro compreenda que tudo mudou, que não é falta de desejo, que não é falta de vontade, que não é desculpa. Que o continua a amar como antes. Que as dores são insuportáveis e fazem-na perder todo o desejo, toda a vontade. Que com a intimidade que se perde, ela perde-se. E a cada dia ela sofre mais.

Por hoje fico por aqui, o texto já vai longo e o coração apertado. Mas retomarei a este assunto e ao tema da violência obstétrica.

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