Crónica de uma menina bem comportada ou “Querido Pai Natal, olha que grandes os meus ovários, olha que erecto o meu clítoris.”

Senta-te. Direita. Cruza as pernas. Uma menina nunca se senta de pernas abertas.

Há na sociedade uma “mulher perfeita”. É aquela que consegue encaixar-se sem mácula no estereótipo que todos apregoam, algo que se encaixa entre a Virgem e a fada do lar moderada, não colocando em perigo a moral social. Aquela que aceita o papel que a sociedade lhe reserva: sorridente q.b., boa cozinheira, pronta a agradar, que não se exalta ou diz palavrões, que sabe “ocupar o seu lugar”. Deve ter cuidados minuciosos com a sua postura diante tudo. Uma jovem com classe escuta mais do que fala. É inteligente, mas não deve exibir-se. Deve ser firme, mas não dominante.

Comporta-te. Onde já se viu contestares o que te dizem?

Ser bem comportada, encaixar no “politicamente correcto”, não passa apenas pela roupa que se veste, pela forma como se fala, como se comporta à mesa, pelos sítios que frequenta. É preciso ser discreta, tímida, calma, serena, educada, carinhosa, inteligente – mas não demais!

Demasiadas opiniões? Muitos argumentos? Uma menina deve saber perder uma discussão. Vai contra “as regras da boa educação” ser demasiado “respondona”.

São muitos (demasiados!), quem baliza os comportamentos femininos e são mais (bem mais!) as famílias que, desde bem cedo, traçam o caminho de correcção das suas filhas. Dos contos de fada ao “uma menina bem comportada não faz…”, são várias as regras de conduta imposta que limitam a acção de uma pessoa designada mulher à nascença, socializada para se adaptar ao que a sociedade considera de mais correcto, mas acima de tudo, aquela que não afronta a convenção, aquela que não põe em causa a organização social. Mas a convenção está sempre a mudar e basta um “pisar de risco” ao de leve, para que anos a comportares-te como um autómato caiam por terra.

Andas assim vestida? Nem te arranjas um bocadinho? Maquilhagem ficava-te bem!

Andas assim vestida? Roupas curtas, baton vermelho, gargalhadas altas? És um pouco vulgar!

A Bíblia culpa a mulher de ter corrompido o fruto proibido e de com ela arrastar o homem (‘tadito…). A mulher é culpada do primeiro acto de desafio ao status quo, do primeiro acto de resistência e rebeldia, naquelas que são as bases sociais da grande maioria das sociedades ocidentais.

Desde cedo, culpada pelo pecado capital de rebeldia, a mulher foi cingida a comportar-se de acordo com preceitos sociais específicos, de subserviência. A destruição deste papel poria em causa a construção da sociedade tal como a conhecemos – “O” horror!

És despudorada. Tens demasiado pudor. Ris de mais. Sorris de menos.

Quem escapa à convenção fica irremediavelmente entregue à crítica.

A mulher é o “Outro” social, dizia a Simone de Beauvoir no aclamado “Segundo Sexo” e a construção da sua função social é, salvo raras excepções, construída de forma (dita) positiva: mais pacíficas, mais moderadas, gentis, altruístas, com instinto de maternidade, etc.

Excepto que… Não!

O Género é uma construção social. E essa construção é feita desde tenra idade e continuada nos meios de informação, por comentadores, por notícias que apregoam o “crime passional”, por comédias românticas que advogam o amor romântico e tantas outras formas quotidianas de socialização.

És solteira? É porque ninguém te pega.

Dormes com demasiados homens? – És “rodada”, uma “fácil”! – Dormes com poucos homens? – Uma púdica…

… Mas essa quantidade limite é definida não por ti, mas por quem à tua volta te critica. E nem pensar em escapar a uma orientação sexual heteronormativa!

Na sua maioria esta socialização, passa-nos despercebida. Pessoas designadas como mulheres ou homens à nascença devem comportar-se de acordo com convenções sociais previamente definidas. A sua fuga à dita “normalidade” e o seu comportamento fora dos trâmites sociais contribui significativamente para a alteração da mesma. Por isso, são geralmente pessoas encaradas como focos de conflito, passíveis de ser atacadas por representarem uma alteração da ordem social. E essa ordem social é tão frágil no que toca ao género que um homem “efeminado” é visto como inferior ao seu igual e alvo de piadas jocosas; uma mulher “com traços de personalidade encarados como masculinos” é admirada, temida, mas sobretudo vexada; e a fuga ao binarismo de género um crime, muitas vezes, pago com a morte (a não esquecer o assassinato da Transexual Gisberta).

Trabalhas e vives sozinha? Que mania de ser independente.

Das opiniões que culpabilizam a mulher, a sua carreira e entrada no mercado de trabalho pela queda da natalidade e degradação da família (aquela que é encarada como a nuclear – radioativa! – pai, mãe, filhos), ignorando factores político-económicos importantes, essenciais numa análise de um quadro global; a posições que apregoam que a “mulher que sem o homem perde a direcção”, “da mulher essencial para a moderação do homem”; são várias as vozes que se assumem contra a alteração do papel social das pessoas designadas como mulher à nascença.

Há trabalhos que não são “de menina”.

A mulher foi feita para ficar em casa, tratar do marido e dos filhos.

Esta súbita, mas constante, oposição ao papel social imposto, não altera, no entanto, a mudança significativa que a sociedade tem vindo a sofrer nas décadas mais recentes, mas advém de uma tentativa – infrutífera, espera-se – desesperada de reposicionar a “ordem das coisas”.

Sais à noite e metem-se contigo? De que estavas à espera: é privilégio masculino. A única coisa que te pode proteger é teres a teu lado alguém que seja teu guardião.

As meninas não são educadas para a conquista.

 

Ufa! Bela merda… Que canseira…  

Estrelinha vos guie, caralhinho vos foda (mas em bom, senão não vale a pena!)

A menina bem comportada é, agora, independente. Entrou para a Universidade; licenciou-se e gozou a vida académica tal qual os seus companheiros de identidade masculina designada à nascença. Vive numa casa, sozinha ou partilha espaços com seus iguais. Trabalha, já esteve desempregada, já foi promovida, já se despediu e mudou de trabalho, paga as suas contas. Tem amigos e amigas; sai à noite, bebe, eventualmente, toma psicotrópicos. Apaixona-se, desapaixona-se, tem casos. A menina bem comportada, hoje em dia, comporta-se como “um homem”. Na realidade, a menina bem comportada, hoje em dia, comporta-se como quer. E nunca foi de meninas bem comportadas que rezou a História!

santa

 

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