Por falar em ambição

A querida Graziela, no seu artigo de ontem, falou de ambição no feminino. A Joana, recentemente, partilhou no nosso chat uma citação da Sally Rooney em que esta fala de assumir o seu sucesso sem ter de agradecer a ninguém por ele (isto é, além de si própria), e referiu como isso é algo que vemos tão raramente em mulheres. A Paula, há uns dias, tocou no assunto no seu post natalício.
Isto, como todos os outros temas que aqui temos aflorado, levanta mil pontas por onde pegar, mas aproveito o balanço para tornar em artigo público o que lhes ia responder em privado:

É verdade verdadinha que a ambição é uma característica desencorajada nas mulheres. O sistema quer-nos vergáveis, não determinadas. As que, leoas, mostram a sua raça, colhem os benefícios mas pagam um preço por isso. Ainda me lembro de um chefe meu, há mais de dez anos, me ter dito com desprezo e desconfiança: «A Rita é muito ambiciosa.» Como se isso fosse mau, lá está. E eu sorri e terei dado uma resposta ambígua, como «nunca tinha pensado nisso assim» (e não teria, na altura) ou «à minha maneira, sou» (resposta de quem sabe distinguir entre ambição e ganância).

Mas, além de todos os condicionamentos patriarcais – o aspecto que mais peso tem, sem dúvida -, haverá algo mais que nos leva, no século XXI, a sermos ainda tão tímidas em relação aos sucessos que queremos alcançar ou que já alcançámos?

De repente, ocorreram-me dois outros factores – positivos, ironicamente – que podem contribuir para isso. Um deles é a noção que mulheres e minorias tendem a ter de forma mais aguda de que nada se consegue sozinho. Ao contrário do homem cis+hétero+caucasiano+rico, que costuma achar que ganha ao Monopólio apenas por mérito próprio, pessoas menos iludidas reconhecem que o seu sucesso se deve a uma estrutura maior (familiar, comunitária, etc.) e, portanto, podem hesitar na hora de colher louros para si. É um sentimento bonito, sim, mas que distorce a verdade.

Depois, muitas vezes, as mulheres podem ser ambiciosas demais. Sim, soa mal, mas eu explico. Somos tão, tão exigentes (por vezes perfeccionistas) connosco próprias que nem nos apercebemos do quanto já alcançámos, sendo as primeiras a desvalorizar o que conquistámos. Em geral, um homem medíocre tem o dobro da autoconfiança de uma mulher hiper-habilitada. Porque, para ela, era sempre possível fazer ainda melhor. E isso, que e é uma coisa boa, acaba por se virar contra si. Que mulher é que, confrontada com um elogio, nunca se apressou a minimizar o feito? (Minimizamos achando que agradamos sendo humildes e não-ameaçadoras, mas minimizamos também por não reconhecermos verdadeiramente o valor que há naquilo, porque nos comparamos com um qualquer ideal irreal.)

O sistema não vai mudar de bom grado para nos acomodar, desatando a dar-nos o devido reconhecimento. No entanto, há duas coisas que podemos fazer para mudarmos nós: repetir para dentro (e para fora!) muitas vezes, como um mantra, apesar das ajudas que recebi, trabalhei muito e o que tenho foi conquistado por mim e apesar de ainda querer mais, muito mais, o que já consegui é incrível.

Levemos estes dois lemas connosco para 2020. Um bom ano, gente boa!

Photo by mauro paillex on Unsplash

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