Sou dona de casa e feminista! E então?

Sou gestora de lar em part-time, vulgo dona de casa. Tomámos essa decisão quando a minha filha nasceu. Monetariamente compensa-nos mais que o meu contributo para o orçamento familiar seja ficar a cuidar da nossa filha e a fazer a gestão da nossa casa (isto não significa que o meu companheiro tenha deixado de contribuir com a sua quota parte de manutenção do lar). Essa passou a ser a minha profissão: gestora de lar. Sim, sou feminista e dona de casa. E sim, é possível. 

Com o tempo fui procurando outras atividades profissionais que pudesse exercer a partir de casa – é sabido que ser gestora de lar não dá muito dinheiro! – porque sentia necessidade de ter a minha própria forma de rendimento e de certa forma independência. Assim, acumulo as profissões de autora e assistente virtual. Dos três empregos em part-time que tenho, apenas um não é financeiramente remunerado: a profissão de gestora de lar. Sim, considero que ser dona de casa é uma profissão. Prefiro designá-la como gestora de lar (e assim a passarei a designar), sendo que não sou dona de coisa nenhuma e existe distribuição de tarefas por todos cá em casa. Quem as gere sou eu.

Esta parece uma profissão fácil e de escolha fácil, mas não é. Xs gestorxs de lar, ao contrário do que se pensa, não ficam todo o dia em casa a ver televisão, ou sentadxs no sofá a ler ou no café a conversar com xs amigxs. Em variadíssimos casos, esta profissão não é tanto uma escolha pessoal, mas uma imposição: ou porque sai mais barato ficar em casa e cuidar dxs filhxs a colocá-los numa creche, ou porque não se conseguiu encontrar trabalho no pós-parto ou depois de se ser despedidx em determinada faixa etária, ou porque a vida assim o ditou, ou seja lá pelo que for. Na verdade devem existir variadíssimas razões por se optar por esta via, e eu não as conheço todas, só conheço as minhas. Conheço pessoas que tomaram a decisão pessoal de escolher essa profissão, mas são uma minoria ínfima. E porque será?

Lamentavelmente, esta ainda continua a ser uma profissão muitíssimo desvalorizada na nossa sociedade e vista com muito desprezo: como se as pessoas que a escolhem fossem preguiçosxs e não quisessem sair de casa para ir trabalhar ou se não fossem suficientemente inteligentes ou diligentes para encontrar outra coisa para fazer da vida. A meu ver devia ser uma profissão remunerada. E porquê?

  1. As pessoas que decidem ficar a gerir o lar, como não têm uma forma de se sustentarem financeiramente, ficam subjugadas e à mercê de quem sustenta financeiramente a casa. O que leva a uma total dependência económica e emocional – sendo a base variadíssimas vezes de violência doméstica física e psicológica – afetando acima de tudo as mulheres, que são a maioria sujeita a seguir esta profissão.
  2. Se aceitamos, concordamos e reivindicamos que os cuidadores informais devem ser remunerados, não será também justo uma remuneração para xs gestorxs de lar? Não são estas pessoas cuidadoras?
  3. Sem remuneração ou descontos, que futuro terão estas pessoas quando forem mais velhas? Não terão forma de se precaver em caso de ficarem sozinhas.
  4. A remuneração desta profissão faria com que xs gestorxs de lar vissem o seu trabalho valorizado, e poderia passar a ser, cada vez mais, uma escolha pessoal em vez de uma imposição da vida. Há de facto pessoas (todas de diferentes géneros), cujo o sonho profissional é gerir a casa e a família. Não terão estas pessoas direito a seguir a sua profissão de sonho e serem remuneradas para tal?

Claro que existem desvantagens para xs gestorxs de lar, não é só a falta de remuneração ou inexistência de pensão de reforma: solidão, exaustão, dependência, carga mental excessiva. 

Na verdade, a vontade de escrever sobre este tema surgiu há uns dias, quando num dos meus grupos de mulheres do Facebook alguém postou um link para um abaixo assinado que exigia isto mesmo: remuneração para as donas de casa (haviam várias coisas muito mal elaboradas no dito abaixo assinado, não era só ser destinado exclusivamente ao género feminino). As reações que observei nos comentários a dito post foram de tal forma preocupantes, assustadoras, que serão alvo do meu texto da próxima semana. 

Para já, queria deixar-vos a minha opinião sobre esta profissão e porque acredito que deve ser remunerada. Concordam? Discordam? Partilhem a vossa opinião nos comentários. Estou cheia de curiosidade para saber a vossa opinião sobre este assunto.

2 pensamentos sobre “Sou dona de casa e feminista! E então?

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