Modéstia ao Longe

Quando começou esta plataforma e convidámos gente para participar , a resposta mais comum de todas as pessoas de todos os géneros era: “ai gostava tanto mas não tenho tempo!” (epidémica, a falta de tempo – há-de ser outro post). Mas a resposta mais comum de todas as pessoas socializadas como mulheres (mulheres, para abreviar) era igual só na primeira parte: “ai, gostava tanto… mas não estou à altura/ não escrevo nada de jeito/ alguém quer saber do que eu escrevo?” e outras variantes da autodepreciação. Note-se que, sendo os gostos relativos (claro que há-de haver sempre quem não goste do que fazemos), se tratava de mulheres com mais do que provas dadas das suas capacidades: mulheres que escrevem profissionalmente, com percurso académico, jornalístico, político, literário, de ativismo, etc. Provas dadas a toda a gente, parece, menos a elas próprias.

Arquivei isso na gaveta do “hei-de escrever sobre isso”, até pela naturalidade com que encarei a reação. Tendo sido socializada como mulher, testemunhei esta autodepreciação a vida inteira: a desvalorização do objetivo atingido, a menorização da tarefa, a atribuição de louvor a outros, a incapacidade de aceitar um elogio sem o rebater. Oh, isto não é nada, tive foi sorte, tive muita ajuda, podia estar melhor, saiu bem mas falta (segue enumeração de defeitos invisíveis para o resto do mundo), está bonzinho, podia ter ficado melhor.

Curei-me disto por puro acaso. Uma vez, acabadinha de cortar o cabelo, fui ter com uma amiga, que me elogiou o corte. Nada de mais, um simples “fica-te bem” ou algo assim. Comecei imediatamente com a desvalorização: oh, não está nada, faz-me gorda/magra/vesga, já nem sei que disparate disse. “Não, fica mesmo giro”, disse a amiga, e eu “oh obrigada, mas não”, etc, conhecem esta escalada de elogio/ desvalorização. Até que chegou a um ponto em que percebi que a minha amiga estava muito frustrada e irritada com esta encenação de bullshit, e que a ternura e o afeto com que começara o nosso encontro estavam lentamente a dar lugar a uma fúria assassina. Igualmente importante foi perceber que, para além da vontade, ela tinha também os meios materiais para me matar: estávamos ao lado de uns carris de elétrico, era só empurrar-me. (Só me encontrei nesta situação uma outra vez na vida: estava a partilhar um quarto de hotel com outra amiga, era muito, demasiado, desumanamente cedo, estávamos com ressacas épicas, e eu achei que precisava muito de secar o cabelo. Quando peguei no secador, a minha amiga tinha na mão uma tesoura de unhas e um olhar que me fez temer pela vida. Pousei o secador. Se saísse de cabelo molhado, podia apanhar uma constipação, mas se o secasse, ela matava-me. E, admito, com razão.) Modulando a voz, a minha amiga disse: “Aceita a merda do elogio”. O 18 começou nesse momento a descer a calçada, e vinha acelerado. Aceitei o elogio. E, por assim dizer, ficou aceite. Nunca mais disse um “oh, obrigada, mas…”.

Tirei o assunto da gaveta quando, no outro dia, ouvi este belo podcast com a maravilhosa Jane Garvey (cuja batalha por igualdade salarial na BBC é digna de se ver). No podcast, *s convidad*s partilham três dos grandes fracassos das suas vidas – sendo a ideia de base que aprendemos mais com o fracasso, etc, aquela citação do Thomas Edison sobre não ter inventado a lâmpada, mas centenas de maneiras de não fazer uma lâmpada, porque falhou muitas vezes (mau exemplo, na verdade ele roubou a ideia ao Tesla, mas prontos), estão a ver a cena. E depois de a Jane Garvey ter admitido não ter conseguido escolher apenas três fracassos, por ter muitos na vida, e até gostar deles, a apresentadora, Elizabeth Day, comentou que sempre que convida pessoa socializadas como homens (homens, para abreviar), eles dizem que não têm fracassos, seguido de um risinho modesto. E que quando convida mulheres, elas dizem que não conseguem escolher só três.

É urgente aprendermos todas a deixar a modéstia à parte – mais do que à parte, ao longe, pelas costas. Não a verdadeira modéstia, que é uma forma de humildade e honestidade intelectual, mas aquela pseudo-modéstia que nos é imposta desde que começamos a ser socializadas como mulheres, de nunca aceitar um elogio, apreciar uma conquista, cantar uma vitória. É urgente nós, mulheres, aprendermos a usar os louros, quando nos são devidos. Aceitar a merda do elogio. Talvez até ser as primeiras a elogiar-nos.

Como acerca de tantas coisas na vida, a Sally Rooney disse-o de forma magistral, na conclusão deste seu maravilhoso ensaio:

 

” But I did it. I got everything I set out to get. I was the one delivering the offhanded refutation. It was me sipping water while I waited for the end of the applause. I still occasionally feel an impulse to attribute all my achievements that year to my perfect teammate, or worse, to good luck. But I’m not nineteen anymore; I don’t need to make people feel comfortable. In the end, it was me. It may not mean anything to anyone else, but it doesn’t have to – that’s the point. I was number one. Like Fast Eddie, I’m the best there is. And even if you beat me, I’m still the best.”

 

E embrulha.

Image by skeeze from Pixabay (É a Serena Williams. Sou team Serena all the way.)

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