As Super Mulheres

Acordo.

Enquanto tomo o pequeno-almoço leio o jornal.

Ponho a máquina a lavar louça (se estiver cheia) ou a de lavar roupa.

Ouço as notícias da manhã enquanto escolho o que vestir.

Tomo banho.

Passeio a Malagueta (obviamente a cadela mais bonita e espectacular do mundo!).

Saio de casa a correr para apanhar o autocarro.

No autocarro leio um bocadinho daquele texto que preciso para as aulas ou para o trabalho que estou a desenvolver ou aquelas notas para a reunião a que vou.

Chego ao trabalho. Um mundo de processos e protocolos e ideias e e-mails e…

Saio do trabalho pela hora do almoço para as aulas de condução.

Como qualquer coisa a correr (se almoçar sozinha) e aproveito para voltar ao texto ou às notas da reunião ou a algum outro projecto.

Volto ao trabalho.

Saio para as aulas na faculdade. Aproveito para actualizar as notícias do dia ou voltar ao texto ou continuar a ler um livro.

Arranjo um bocadinho de tempo para estar com os amigos – não todos os dias, mas muitas vezes! Em outras alturas ainda arranjava um tempinho para activismo e reuniões e debates…

No meio de tudo isto ainda há espaço para amores.

Chego a casa por volta da meia-noite – qual Cinderela!

Estendo a roupa ou arrumo a louça entretanto limpa [inserir aqui ODE aos electrodomésticos que nos salvam].

Passeio a Malagueta (a melhor cadela do mundo!).

Preparo a comida para o dia seguinte.

Visto o pijama.

Sento-me no sofá a ver uma série ou, mais recentemente e porque é época deles, a escrever trabalhos para as diferentes cadeiras da faculdade num calendário rigorosíssimo para cumprir “deadlines”.

Vou dormir.

Antes de me insultarem e me dizerem que só faço tudo isto porque assim decidi, saibam que eu sei que é verdade. Eu decidi em plena consciência das minhas capacidades continuar a fazer tudo o que já fazia antes e acrescentar a faculdade e as aulas de condução.

Antes de me dizerem que a minha vida é uma canseira e que eu devo estar sempre uma pilha de nervos, saibam que eu devo ser das pessoas que conhecem mais descontraída. Insiro aqui um comentário, apenas porque me apetece, de uma amiga quando lhe perguntaram (estava eu com ela fora do país) como é que eu tinha reagido quando soube que a pessoa que me tinha ido tratar das bichas (as mais lindas e maravilhosas do mundo!) tinha ficado fechada fora de casa, sendo que eu só voltava 2 dias depois. Ela respondeu, calmamente: “É tão refrescante estar com alguém que não sofre de ansiedade.”

Antes de me dizerem que eu não me devia queixar, saibam que não é uma queixa, descansem almas!

Antes de tudo isso, olhem para a vossa vida, para a vossa rotina!

Quantas de vocês sofrem a pressão, sobretudo uma auto-pressão, para serem tudo: boas amigas, boas profissionais, boas companheiras, boas donas de casa, boas desportistas, boas estudantes?

Quantas de nós querem ter opinião sobre os assuntos actuais, ler esse último livro, ver a exposição no MAAT, ter a casa um “brinquinho”, receber os amigos para jantar, ter tempo para estar com todos, tirar essa especialização que aguarda há tantos anos, ir ao ginásio, entre tanta, tanta coisa?

E depois ainda há aquelas coisas que marcamos com um círculo gigante com a anotação: “Para a próxima tenho de fazer melhor”.

E aquelas que pensamos: ontem à noite devia ter ido àquela exposição ou não consegui ir ao supermercado e agora em vez de risotto vou ter de fazer paella…

Esta necessidade de “conseguir ter e ser tudo” para ser feliz: o Síndrome de Super Mulher!

800px-We_Can_Do_It!

E tudo isto porque esta semana não consegui escrever o meu texto a tempo para “A Palavra F”…

 

 

2 pensamentos sobre “As Super Mulheres

  1. Adorei seu texto e me identifiquei muito com ele. Nunca me julguei uma pessoa que precisaria fazer terapia, mas em meio a um turbilhão de acontecimentos pessoais, acabei fazendo e foi na terapia que percebi me exigia demais, que me cobrava de mais, e como meu psicologo chamou, eu claramente sofria da Síndrome da mulher maravilha! Me esforço pra ser mais gentil comigo mesma, e como você disse, fazemos muitas coisas pq escolhemos fazer, não é uma reclamação, só uma constatação mesmo.

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    1. Muito obrigada pelo comentário. Na realidade é algo de que me tenho vindo a aperceber cada vez mais: a quantidade de mulheres fantásticas que tenho à minha volta e a quantidade de coisas inesgotáveis que todas fazemos. Falta-nos conseguirmos sermos assim gentis connosco próprias todos os dias!

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