Deixar

Há muitos anos atrás, quando existiam coisas como agências de publicidade, editoras discográficas e agências de viagens, eu tinha algumas pessoas amigas a trabalhar em publicidade. Copys, designers, criativ*s, accounts, todas contavam o mesmo cenário: ambiente tóxico, cheio de egos, ostentação, e mais orçamento que bom senso. E, marco incontornável: um diretor insuportável (na grande maioria um homem, com algumas mulheres monstruosas de assinalar), de pesadelo, tirano de humor instável e uma carreira pejada de prémios (eram todos históricos criadores de anúncios que tinham passado a fazer parte do imaginário nacional, tinham todos trabalhado com o Ary dos Santos e com o Alexandre O’Neill, eram todos o melhor copy desde que o Pessoa disse aquela cena da Coca-Cola ). Quando saiu O Diabo Veste Prada, todas estas pessoas amigas se arrepiavam com a Miranda Priestley (e, passe a representação estelar da Meryl Streep, não lhe achavam gracinha nenhuma): é mesmo assim, diziam, com a voz rouca de stresse pós-traumático. Do cantinho da pequena empresa familiar em que eu trabalhava, dava graças aos céus e perguntava-me como era possível ainda existirem chefes assim.

Quando vi este anúncio da GNR, percebi (não pela primeira vez) a utilidade d* chefe de pesadelo. É evidente que há na GNR, ou na agência com quem trabalham, um pequeno génio de publicidade; alguém com um imenso potencial criativo, um talento ímpar para juntar ideias, e o dom de as pôr por palavras. Mas. Com um potencial a precisar de muita orientação. Alguém que trave a criatividade desenfreada e a frase que só soa bem aos nossos ouvidos. A violência emocional nunca é desculpável, e não sou de todo defensora de estruturas hierárquicas, mas assim que vi este anúncio pensei que o que fazia falta, neste caso, era um WTF ribombante de um* dess*s chefes de pesadelo.

Quem é que deixou passar isto?

Quem é que deixou que a admirável iniciativa de uma campanha para encorajar as vítimas de violência doméstica a pedir ajuda se transformasse numa campanha de culpabilização da vítima?

A quem é que ocorreu que o motor da violência doméstica é uma suposta permissividade da vítima?

Quem é que ainda acha que a violência doméstica acontece porque a mulher “deixa”?

O que uma mulher em situação de violência doméstica mais quer é precisamente deixar. Deixar a situação, deixar aquele homem que a violenta, deixar de se sentir, sim, um saco de pancada. E em tantos casos, é precisamente isso que ela não pode fazer: não pode deixar a casa por não ter para onde ir em segurança. Não pode deixar a relação por medo de represálias. Falta apoio institucional que a proteja devidamente.

E é dolorosamente irónico que seja precisamente uma das instituições responsáveis pelo combate à violência doméstica a revelar uma tão grande falta de compreensão da mesma.

“Não deixes que façam de ti saco de pancada”? Não deixemos que façam de ti culpada pelo crime de que és vítima.

(Por falar no dom das palavras, hesito sempre, quando escrevo sobre violência de género, antes de usar a palavra “vítima”. Precisamente porque, para quem se encontra nessas situações, uma das coisas dolorosas e traumáticas é ver toda a sua identidade reduzida à de vítima. Copys que por ainda aí andem, ajudem!)

(E já agora quem, à exceção do Bugs Bunny quando se veste de senhora para fugir ao Elmer Fudd, é que acha que um vestido vermelho justo é o sinal universal da figura feminina?)

PS – Sobre a Miranda Priestley e o arquétipo da mulher num cargo de poder ser sempre uma cabra, outro post mais longo seguirá em breve.

Um pensamento sobre “Deixar

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