“Abolição do Género”, a doença infantil do patriarcado: carta às camaradas.

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Cara Camarada,

escrevo-te este texto para te chamar à razão. Considero eu, homem, branco, cis que devemos abdicar desses conceitos estranhos que apregoas para aí. Dizia a Simone de Beauvoir que a maturidade em relação ao contexto social é aprendida, não instintiva: “Ninguém nasce mulher, torna-se”.

Li há uns dias e acho que ela tem razão.

De uma forma simples e para tótós: o género é uma construção social e é a classe dominante que o cria. Eu, homem, branco, cis estou tão desconstruído que já nem uso nada disso. Aboli os papéis de género, aliás, aboli O género. Por ser construção social, deve ser abolido o conceito. Percebê-lo é coisa de somenos importância. Importante é a classe, essa sim, material e nada construída socialmente. Ando há uns tempos a tentar aboli-la também, mas sacana, está difícil…

Eu sei que no “Estado e a Revolução”, o Lenine faz a resenha de um debate que tinha acontecido na I Internacional entre os Marxistas e os Anarquistas. O Engels falava em extinção do Estado e os Anarquistas em abolição do Estado. Nessa altura, o Engels dizia que a abolição era um acto de vontade: redigias num papel uma lei de abolição. Segundo ele, a extinção é um processo mais longo, um processo histórico. O estado não é abolido: morre. Assim será com as classes. O Género é uma coisa que podemos decidir, estala-se os dedos e… puff… Querida, aboli o Género!

E esta coisa do género e do feminismo é uma distracção. O feminino é construído como coisa domesticada e doméstica. E assim estava óptimo. Sossegadinho e sem mexer muito. Quando era preciso a malta mandava umas miúdas ali para a frente e elas falavam dos salários baixos e das condições de trabalho. Depois quando se esticavam a malta dizia que aquilo era escapar à luta de classes e ficava tudo bem. Assim, o feminino encontrava-se em sítios específicos, geralmente invisíveis, uma espécie de acessório. A não ser quando se falava da Pátria, da República, da Revolução. 

Feminismo e género só segregam e criar esta divisão é o que a burguesia e o capitalismo querem, por isso devíamos deixar estas questões de lado que é para não complicar mais. Só existe a luta de classes. E dentro deste conceito material e palpável somos todos iguais ou somos mais iguais do que os outros – como preferires. Por isso é que esses alguns (mais iguais do que outros) se podem arrogar ao direito de definir qual a direcção da luta, qual o processo a seguir, qual o conceito correcto e quais destes são “reais”.

Há uma “objectividade científica”, uma questão de biologia, presta atenção, não estás a perceber, é preciso contribuir para o “fim do género” que a luta não é um folclore. “Saímos à rua a horas certas”, enquanto invisibilizamos e marginalizamos todas as pessoas que não se encaixam ou desafiam a normatividade. Porque convenhamos, o género não existe. Essas reivindicações são exageradas, desnecessárias, até ridículas: olha perder tempo a discutir casas de banho quando eu cá mijo em todo o lado…

Há quem venha dizer que esta é uma postura negacionista, mas não te enganes e presta bem atenção. Olha o silenciamento e a invisibilidade que esta afirmação produz à sua volta. Como é que um gaijo explica ao proletário esta “folclorização” da luta? Como é que um gaijo explica ao proletário que o feminismo não é o que nós queremos e que há malta para aí com poder de decidir sozinha?

Camarada, tu não percebes que “o verdadeiro problema é o capitalismo”. E eu não quero deixar passar esta oportunidade de te demonstrar que li Kollontai, ainda hei-de ler a Federicci e, nessa altura, vou conseguir explicar-te como é que o capitalismo e o patriarcado se articulam, mas ainda não percebi muito bem. Só sei que é tudo usufruto do patrão.  As meias limpas que estão na gaveta e que calço antes de ir para o trabalho, são usufruto dele. As 8h de lazer que tenho quando chego ao final do dia e me permitem descansar para no dia seguinte retomar a labuta, são usufruto dele. Eu sei que enquanto eu estou sentado no sofá a ver o Fernando Mendes no Preço Certo e a coçar a barriga com as minhas botas cheias de lama a sujar a carpete, tu estás a limpar a casa, a alimentar as crias, a cozinhar, a estender a roupa. Mas, camarada, isto é tudo mais-valia do meu patrão! É ele que usufrui de eu, homem-proletário, estar mais descansado. Eu não usufruo de nada disto. Às vezes até me custa ver-te, mas a mais-valia do meu descanso e do teu trabalho salta directamente para ele. E no final, repara, eu “até ajudei” a pôr a mesa.

Quando eu olho do alto do meu esqueleto directamente para o meu umbigo não vejo o meu privilégio. A sociedade não é construída em torno do falo, não é o falo a definir as grandes correntes políticas e económicas, não é o falo o detentor do poder numa sociedade que é patriarcal (olha eu a usar a terminologia? Vês?). Mas vamos descentrar-nos do falo e concentrar-nos no que é mesmo importante: o género ofusca as demais lutas, aquelas verdadeiramente importantes para as mulheres como os problemas reais do salário mais baixo, do desemprego, dos direitos laborais. E já chega! Consigo ver o teu olhar impressionado enquanto me dizes “Obrigada Senhor que me permitistes ver a luz!”

É preciso ter uma luta feminista mais dócil e aberta ao diálogo, mais compreensiva daquilo que vos estamos a dizer e do que é realmente importante, capaz de perceber que nem todos os homens se comportam desta forma. Sabes bem que quando não nos ouvimos a nós mesmos repetidos em eco gritamos: Misandria! É uma canseira proclamar o ódio de classe, gritar que o Patrão é o inimigo e depois ter de acalmar os ânimos e explicar às feministas que o homem é um aliado.

O comunismo, camarada, não tem nada a ganhar com o feminismo ou essas “lutas identitárias”. Toda a gente sabe que “a questão da mulher” já estava colocada em algum texto socialista há séculos atrás. O Marx, debaixo da barba farfalhuda, era mais feminista que o movimento inteiro junto. Tem calma com essas exigências, mais vale um patriarcado socialista. Depois da revolução nós vemos.

Camarada, despeço-me deixando todo este material para pensares, vais ver que a razão está do meu lado, saudações feministas.

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