Never surrender. Never give up the fight.

Hoje era suposto escrever uma sequência do texto onde vos dava conta de uma petição pública em que se pretendia que a profissão de dona de casa fosse remunerada. Ia-vos falar de sororidade e da falta que ela faz. Ia-vos falar de caixas de comentários e de um Estado social. Mas já não vou. Entre esse texto, já meio feito, e o dia de hoje aconteceram tantas coisas que perdeu a urgência. E estou cheia de raiva. Estou cheia de medo do que aí vem.

Apetece-me falar – ou será gritar de desespero e medo – sobre Portugal. Vou na mesma falar de caixas de comentários, contudo abrangendo todo um país podre, pobre e que caminha para um abismo a passos largos. Um país, ainda extremamente colonialista, onde as caixas de comentários são tribunais parciais, injustos e decadentes, onde se destila racismo, machismo, misoginia e que, visivelmente, nos mostra e alerta para o facto de que todos estes sentimentos não são apenas estruturais, mas culturais. Sentimentos que estavam latentes e que só aguardavam a vinda de um qualquer aziago D.Sebastião, que decidiu aparecer sob a forma de entradas parlamentares neoliberais e de extrema direita, para que os portugueses tirassem a máscarazinha que andava a aguentar.

Quando uma mulher é vítima de algum tipo de violência de género, o que mais se vê nos comentários é: “teve o que merecia!”; “mas como é que não saiu da relação logo ao primeiro estalo?!”; “que roupa trazia?!”; “li no jornal que ela era uma provocadora. Cada um tem aquilo que merece.”; “Não fosse vadia. Quem a manda andar nos copos até tarde e atrever-se a vir para casa sozinha.” Fora todo um rol de piadas misóginas que são feitas nas caixas de comentários às “notícias”.

Quando uma pessoa de uma minoria é assassinada, o primeiro comentário é logo o de “Pronto, agora vão dizer que foi racismo” e o seguinte “Ah, mas dos brancos que são assassinados e roubados todos os dias não falam”. Muitos outros comentários são feitos, mas são de tal forma degradantes e repulsivos que nem os vou reproduzir. Ah! E os culpados são sempre, sempre “essa raça de gente que se julga acima da lei e que não se quer integrar”: xs ciganxs

Quando uma portuguesa negra, que vai para casa com a filha e o sobrinho menores, é ofendida por um motorista que sofre do síndrome do poderzinho fascista e destila impropérios racistas por todos os lados, é espancada desumanamente polícia que não só tece comentários racistas, como misóginos, é recusada por hospitais privados para fazer exames, é constituída arguida por resistir a uma detenção (Uau! Que justiça célere. Pena que o policial não tenha tido o mesmo tratamento), então os comentários são: “respeitinho é bom!”; “Vivem aqui, têm que respeitar as nossas leis”, “Ela é que ofendeu primeiro o motorista.”, “Ah! Então e agora defensores das minorias, o jornal já veio dizer que ela tem historial de violência!”, “Coitados dos policiais, não merecem isto. Já viram como o homem ficou com o braço. Nem se podem defender!”; “Que merda de mãe é esta que não se manteve calma e fez uma cena dessas em frente à filha pequena?”. Fora todos os outros comentários profundamente racistas e xenófobos que me recuso a repetir.

Quando um dirigente fascista, extremamente racista e xenófobo, aparece num programa de televisão que tem uma das maiores taxas de audiência e é direcionado para um público sénior ou com uma educação mais baixa, se alguém disser que isto é anticonstitucional e que estão a tentar lavar a imagem a esta personagem, então os comentários são: “Olha agora? Não há liberdade de expressão neste país?”, “Parece que o homem fez algum mal. Já cumpriu a sua pena.”; “Este é que é corajoso! A falar mal dos ciganos e dos negros (obviamente que a palavra usada não é esta, mas não vou repetir discursos hediondos)”; “Apoiado. Se ele chega a primeiro ministro, manda-os todos de volta para a terra deles!”; “De um destes é que precisamos como o Dr. Salazar!”.

Mas que merda de país é este? Que merda de gente é esta? Que porra de realidade é esta? Do que é que estamos à espera para discutir em praça pública – admitir e encontrar soluções – que Portugal está a rumar para um precipício, para um caminho perigoso, que faz lembrar uma época da qual não saímos há muito. Racistas ao virar de cada esquina. Uma política xenófoba, acima da lei, sem escrúpulos. Fascistas encapuzados que querem destruir um estado democrático e social. 

Que merda de século é este em que se repete assustadoramente as piores escolhas do século XX, onde se ouvem discursos do Goebbels e não se questionam as instituições, em que só se presta atenção aos títulos dos artigos online – que são minas de click bites – e se acredita neles, em que toda a porra de espécie de ignorante se acha melhor que xs outrxs. Em que se espancam pessoas porque são minorias, feministas, queer, entre outrxs que saem da norma e em que a culpa é das pessoas que são minorias, feministas, queer, entre outrxs, porque eles é que são diferentes e confrontam a sociedade patriarcal instituída. O ser humano é estúpido, ignorante, carneirinho e egocêntrico. 

Às vezes apetece-me baixar os braços, desistir de lutar, e penso: Foda-se! Que a Greta tenha razão e que esta merda de mundo exploda de uma vez por todas, porque a pequenez, a merdice, a falta de humanidade da humanidade a que se chegou é de tal ordem absurda, que a coisa já não vai lá.

Depois respiro fundo e arregaço as mangas: Never surrender. Never give up the fight.

Um pensamento sobre “Never surrender. Never give up the fight.

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