Ad Bolinham Baixam

Viram o Parasitas? Sabem aquele medo, que começa como medinho, vaga inquietação, tremor na barriga, quando se percebe, a dado momento de um bom filme, que a coisa vai virar, o caldo entornar, a barraca arder, a merda bater na ventoinha? Aquela premonição mais aterradora do que qualquer terror que se siga, porque não se vê muito bem o que aí vem e só sabe que é mau, muito mau?

Bom, é mais ou menos assim que me sinto sempre que alguém usa o argumento de que quem reivindica direitos ou denuncia injustiças está a alimentar extremismos. O argumento consiste mais ou menos no seguinte: quem denuncia casos de desigualdade e injustiça e reivindica o direito de não as sofrer está a fazer uma de duas coisas, ou ambas: a fazer uma tempestade num copo de água (e segue-se uma negação ou menorização dos ditos casos: “não foi bem assim”, “não é assim tão grave”, “el*s também fizeram mal, não são sant*s”, “isso é os telejornais a exagerar”, etc.); ou a levantar uma lebre que só vai servir para pôr mais achas nas fogueiras dos ódios que deram origem a estes casos (“quanto mais se fala nisso pior é”, “esta conversa toda de direitos só dá é mais argumentos ao outro lado”, etc). Versões bastante desarticuladas desta argumentação encontram-se… bom, em todo o lado, mas a Isabel Moreira recolheu uns bons exemplos. De qualquer forma, a conclusão dos argumentos é mesma: quem denuncia devia ficar calad*, baixar a bolinha, e esperar que a coisa vá ao sítio por si mesma. E depois às vezes até citam o Dr. King, sem que o karma lhes faça cair uma bigorna na cabeça, o que quase me leva a questionar a justiça do karma (e das bigornas): “o arco do universo moral é longo, mas inclina-se para a justiça”. O Dr. King deve ter dito isto baixinho a um amigo num café, porque, segundo o próprio argumento, basta esperarmos pelo arco do universo moral, e não é preciso nem marchar em Washington nem estar a ter trabalheiras dessas. Aliás, se Gandhi tivesse tido mais paciência e um apetite mais saudável, os ingleses tinham acabado por libertar a Índia, quando não lhes fizesse falta. E se as sufragistas fossem mais arrumadinhas e estivessem mas é em casa a tratar das lides, o direito ao voto e à propriedade havia de chegar, pelo correio, junto com a Burda Modern. E se os judeus europeus fossem menos ostensivos com o dinheiro e mais generosos como banqueiros, o Holocausto não tinha acontecido (nem sequer estou a brincar, isto era escrito em jornais europeus respeitáveis, tanto antes da guerra como depois, e dito e defendido por intelectuais europeus com dois dedos de testa.). É deixar-se estar quietinho que o arco do universo moral trata de tudo. Agora, claro, se provocam, com essa mania da integração e do direito à igualdade, prontos, é o que se vê.

Não vos sei explicar o frio no estômago que me dá esta argumentação. Felizmente, a brilhante Nina Simone soube explicá-lo muito bem com a arrepiante canção Mississippi Godamn (e sabiam que essa canção, e todo o seu envolvimento com o movimento dos direitos civis, quase lhe deu cabo da carreira?), a melhor resposta que alguma vez ouvi a este pernicioso argumento de que é preciso “go slow”.

Para provar que (e com todo o devido respeito ao Dr. King) que o arco do universo moral às vezes é mesmo só um filha da puta, saiu há dias no Público um editorial com um fofíssimo twist deste argumento tão pernicioso: que a denuncia de injustiças – racistas, neste caso – serve para alimentar o extremismo… antiracista!

Gosto de pensar que antiracista, tal como feminista, humanista, ou qualquer outra designação para uma atitude que defenda a justiça e a igualdade, é uma coisa que não se pode ser de forma modal – ligeira ou extremamente. É como estar grávida – ou se está ou não se está. Ou se é ou não se é antiracista. Ou se acredita que todos os seres humanos são iguais, ou se escreve artigos de opinião para um dos principais jornais diários a dizer que a urgência de esclarecer uma acusação de violência policial se deve à necessidade de repor a credibilidade de uma instituição do Estado, e não à necessidade de garantir que nenhuma instituição do Estado abusa dos seus cidadão da forma brutal como parece ter sido neste caso.

Acusar de extremismo aqueles que reivindicam o mínimo necessário à existência digna, em justiça a igualdade, é uma posição intelectual que me assusta mais ainda do que aquela cena do Parasitas (pode ser qualquer uma, am I right, quem já viu o filme?). Porque é precisamente a posição das “pessoas boas” protagonistas daquela frase citada sempre a despropósito: para que o mal triunfe, basta que as pessoas boas não façam nada. Ou estejam demasiado preocupadas com “extremismos” para ver o verdadeiro perigo ao virar da esquina.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s