Como é que vocês dormem à noite?

Uma mãe entra num autocarro às 21h em direcção a casa com a filha de 8 anos pela mão que se esqueceu do passe. É insultada pelo motorista e agredida violentamente pela polícia que lhe aplica um mata-leão e a atira ao chão usando da força bruta. Leva-a no carro até à esquadra enquanto a insulta e a soca deixando-lhe a cara desfigurada. Chamam uma ambulância que se recusa a aceitar a queixa e querem obrigá-la a assinar algo no hospital que não consegue ler devido aos ferimentos no rosto. Os bombeiros dizem que foi uma “queda” (leiam assim sem virgulas para ficarem sem fôlego).

Cláudia
Foto: Bruno Amaral de Carvalho
(retirada daqui: “Espancada porque filha se esqueceu do passe” https://www.wort.lu/pt/portugal/espancada-porque-filha-se-esqueceu-do-passe-5e2633e1da2cc1784e3546b7?fbclid=IwAR1kN3w0Wk_CbBhvAW_S5JxSxrws3lgbjzujmiYdWHMol41MtUm2wEalICQ)

O meu nome é Paula. Tenho 35 anos. Todos os dias ando de transportes públicos. Aliás, toda a vida andei de transportes públicos: eu não tenho sequer carta de condução!

Há uns anos atrás (2013-2014) estive desempregada uns meses valentes. Entreguei a casa arrendada e mudei-me para casa de um amigo, também ele desempregado, pensando: há-de ser mais fácil aguentarmos isto a dois apesar das dificuldades.

Vivíamos “conforme dava” e, sobretudo, vivíamos com muita ajuda de amigos que nos levavam sacos de comida a casa. Durante uns meses, depois de pagar a renda, a água (mês sim, mês não), a luz (mês sim, mês não), eu – e ele – não tínhamos dinheiro para beber um café. Sim, eu e ele não tínhamos 0.60€.

Durante esse período procurei trabalho. Ia a entrevistas quase todos os dias, trabalhos fatelas, com condições miseráveis, ordenados que davam literalmente para pagar a renda.

Durante esse período, eu andei de autocarro e de metro sem NUNCA pagar. Foram pelo menos 6 meses, consciente de que o pior que me podia acontecer era encontrar um “pica” que me passasse uma multa que eu também não ia conseguir pagar.

É neste momento da descrição, – depois de vos dizer que não tinha trabalho, não tinha dinheiro, não tinha comida, não sabia como pagar a renda, às vezes não tinha água nem luz – que vos digo: Eu sou uma privilegiada.

Ao contrário da Claúdia, 42 anos, filha de 8 anos pela mão, NUNCA durante estes 6 meses eu achei que me poderiam espancar por não ter passe – e reparem que, ao contrário de uma criança de 8 anos, eu pago bilhete. Vários motoristas se aperceberam que eu não passei o passe e não paguei bilhete. Várias pessoas me permitiram entrar atrás delas no metro. Vários seguranças sorriram e fingiram que não deram conta.

Os comentários desta semana sobre a agressão policial bárbara de uma mãe com uma criança de 8 anos (OITO anos!) pela mão fizeram-me pensar nisto que vos contei várias vezes. Demasiadas vezes.

Podia falar-vos de racismo, violência policial que, diz a polícia, “utilizou a força estritamente necessária para o efeito face à sua resistência”, dos comentários que li que diziam “uma mãe sujeitar uma criança àquilo” (porque não bastava o racismo, tínhamos de ser misóginos e machistas também), dos comentários que falam em “agressão da mulher às forças policiais e que a autoridade agiu em defesa” (e depois colocam os braços de alguém cuja identidade desconhecemos que tem, alegadamente, umas mordidelas – comparemos com a cara da Cláudia e vamos falar de proporcionalidade!), do ataque vil e descarado que se lhe seguiu com a procura de “passados obscuros”, do comentário do Sindicato Unificado de Promotores da Insegurança Pública acerca de “mordidelas e doenças” (QUE ABSOLUTO NOJO!), da falta de transportes, da falta de formação dos motoristas…

Podia falar-vos de muita coisa, mas eu nunca sofri racismo, não tenho uma filha de oito anos, nunca a polícia me agrediu daquela forma. Deixo-vos, por isso, o limiar mínimo da empatia para pensarem o básico da reciprocidade: não se espanca uma pessoa por ela não ter consigo o passe da filha de 8 anos.

Depois podemos falar de violência policial e racismo, machismo e misoginia, difamação em praça pública, mas para isso é preciso perceberem o básico.

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