Armar barraca

Há uns anos, li algures a melhor resposta de sempre a uma pergunta que de vez em quando fazia para dentro. Embrulhei e nunca mais me esqueci dela. A pergunta era: «Porque é que eles falam tão alto?» Eles eram os meus companheiros de viagem no comboio, habitualmente de classe baixa.* Conversavam alto uns com os outros, berravam ao telemóvel, suspiravam em voz alta, falavam sozinhos, vociferavam contra o que naquele dia os incomodava. Eu queria ir sossegada com os meus pensamentos, talvez a ler. Aquela algazarra parecia-me desnecessária. Porque é que falam tão alto? A resposta chegou, um dia, muito evidente: porque ninguém os ouve, porque não têm voz. Quando me apercebi disso, corei. O meu desejo de sossego, a minha expectativa de mais elegância no espaço público, passaram a parecer-me despropositados — eu não queria ser incomodada por pessoas cujo quotidiano é feito de mil incómodos. Isso não confere a ninguém o direito de incomodar terceiros, claro, mas torna tudo mais compreensível. E eu, que tenho uma vida de absoluto privilégio em comparação, posso bem acomodar esse pequeno incómodo, não é o fim do mundo. É o mundo. Eles gritam porque ninguém lhes presta atenção. Toma lá que já almoçaste. Presta tu atenção a isso.

Num cenário ideal, falaríamos todos num tom sereno e cordato. Mas não vivemos num cenário ideal. Perder a compostura, aliás, é frequentemente a única opção. Perante o rol de injustiças de que somos vítimas ou testemunhas, como não gritar? Admira-me é que se grite tão pouco. Precisamos todos de nos indignar mais, muito mais. E será esse coro de vozes a exigir a mudança quem a conseguirá. O problema é que aparece sempre logo um contra-coro a exigir recato, calma, moderação. As mulheres querem-se discretas, não a levantarem a voz. Os activistas têm de ser eloquentes para serem levados a sério. Nada de agitar muito as águas, com paciência isto vai. Mais umas gerações e o fosso salarial diminui. Mais uns séculos e o pseudoproblema do racismo desaparece por si mesmo. Pois… Como disse Martin Luther King Jr. numa das suas cartas escritas na prisão, o moderado é um inimigo bem pior do que o radical ao valorizar mais a ordem do que a justiça, apelando a uma paz opressora, sempre sabotando as mudanças necessárias em nome de uma qualquer civilidade. Civilidade! O que é que interessa a civilidade quando a igualdade não está garantida?

Tudo isto me ocorreu no último mês e picos, ao ver o tratamento dado a Joacine Katar Moreira na imprensa, dentro do seu partido e na praça pública. Os ataques tornaram-se ferozes. O escrutínio constante e o bullying foram muito mais longe do que iriam em «circunstâncias normais» (normal sendo um homem branco heterossexual, de matriz cristã, não gaguejante e engravatado). Sim, JKM e o Livre revelaram inexperiência, mas a tinta que correu e que ainda corre contra a deputada é de um azedume, de um racismo velado e de um sexismo explícito que me deixam pasmada. Nunca um deputado foi tão escrutinado. Eu sabia que JKM vinha para incomodar jornalistas, políticos e comentadores. Mas o que se seguiu foi do mais virulento que há. Os seus próprios companheiros de partido se voltaram contra ela e quiseram tirar-lhe a confiança. Isto é, intrigas políticas há sempre, mas quando vemos Rui Tavares dizer que teve «vergonha alheia» dos «gritos» de Joacine no congresso do partido (que vergonha de declarações, RT)… algo se está a passar.

Não vou falar do conteúdo desse desacordo entre as partes, para aqui interessa apenas a forma. Joacine foi retratada na imprensa – no jornal Público, nem falamos de um boletim fascisóide — como «exaltada», «de dedo em riste», gritando curiosamente «sem gaguejar». Muito mais do que a substância das suas palavras (pouco ou nada citadas, aliás**) a ênfase foi toda posta no colorido da descrição. As fotografias escolhidas também foram ao melhor estilo Medusa em fúria. No dia seguinte, várias pessoas que conheço, em conversa, se referiram a ela como «diva», «histérica», «descontrolada». Clássicos insultos anti-mulher. Tive de ir ver o vídeo da sua intervenção para perceber de onde vinha aquilo. Sim, o vídeo mostra uma pessoa zangada. Que gagueja de vez em quando. Que levanta o dedo. Que está claramente indignada. Não sei se com razão ou não (acompanhei o caso, mas só quem está lá é que sabe), mas nada no vídeo me espantou. JKM tem sido acossada de todos os lados, acusada de quase todos os males, e sente-se isolada de todos os que se diziam com ela. Quem não perderia a calma? Além disso, o que há na sua intervenção que divirja de tantas outras que ouvimos por aí? Parece-me que apenas o tipo de cobertura mediática. Ainda neste fim-de-semana, no congresso do CDS, ouvi pelo canto da orelha um Telmo Correia a falar enfaticamente ao microfone. Faltavam-lhe as tranças, a cor da pele e o idealismo. Mas o seu ardor não andava nada longe do de JKM.

Dizer que ela deveria «comportar-se» é, neste caso, querer silenciá-la. JKM incomoda os outros passageiros deste comboio triste. Talvez desse mais jeito a alguns que ela falasse como Mariana Mortágua, de forma fluida, monocórdica, com poucas expressões faciais, que trajasse de modo neutro. Pela minha parte, gosto muito que JKM destoe e incomode. Espero mesmo que o Livre não lhe retire a confiança política (muito provavelmente perderá o meu voto, se assim for) e que ela continue a provocar alvoroço por onde quer que passe. Se ela está a incomodar essas pessoas, só pode ser bom sinal. Mesmo que, aqui e ali, me incomode a mim também. Por exemplo, penso que no meio da algazarra se podem perder oportunidades de intervenção política mais produtiva. Mas, pelos vistos, é de algazarra que estamos a precisar.

Há vários anos, no metro, fui assediada insistentemente. Naquele dia, em vez de fingir que não reparava, em vez de sofrer em silêncio, levantei-me e armei barraca. Confrontei o tipo, que se pôs a barafustar, a dizer-me que eu «devia ter a mania», a chamar-me «peixeira». Deixei os outros passageiros desconfortáveis, expus-me ao ridículo, mas a gritaria foi a minha única defesa possível. Por vezes, o histerismo é o caminho. A revolta, o banzé, espernear. Morder um polícia, se for preciso. Uma mulher como Isabel dos Santos (com quem JKM foi comparada, imagine-se!), rica, que fala baixo, com cursos e roupa cara, pode roubar milhares de milhões a um povo mantido na miséria mais abjecta e desnecessária, fugir da justiça e pouco lhe acontece. As Cláudias Simões que são agredidas na via pública têm de gritar muito alto. Por socorro. Por justiça. Pô-las no mesmo saco ou, o cúmulo, condescender com as primeiras e denegrir as segundas, é um crime moral. Chamar histérica a quem clama por equidade diz muito mais sobre quem manda calar do que sobre quem grita.

Miguel Vale de Almeida (que, juntamente com Rui Zink e Mário Moura, têm sabido falar de JKM e pôr as coisas em boa perspectiva — recomendo que sigam o que estes três homens brancos têm dito no Facebook sobre o caso) resumiu muito bem a duplicidade de critérios no tratamento de uma JKM e de um Francisco Rodrigues dos Santos***:

COISAS:

a gritaria do chicão não é assustadora, é viril

a sua roupa não é provocatória, é bem composta

o cabelo ou a barba estão certíssimos

o radicalismo é normal naquela idade

o extremismo é só para criar emoção

o erro de casting não se coloca, foi eleito

a traição ao eleitorado não existe, não foi nele que votaram

a traição ao fundador também não, que já morreu

a gaguez, bom, a gaguez não tem, ora essa

o género não tem nada de especial, é um bonito rapaz

a cor da pele, isso a gente não vê cores

votos de um santo natal em paz e tranquilidade sociais

Vejam este vídeo. E depois vejam este vídeo. Digam-me qual dos dois é mais assustador. Está sempre tudo pronto para se escandalizar com o dedo em riste da negra, mas como já conhecemos bem vozes destas (Ventura & Co.), a que o povo chama sensatas, essas ninguém estranha.

Pois. Pensemos nisto. E depois gritemos.

Nota: Caso não tenha ficado claro, este não é um texto pró-Joacine Katar Moreira, é um texto contra o tipo de ataques de que tem sido alvo.

*Também há o fenómeno inverso, o dos meninos riquinhos que fazem escarcéu «porque podem», porque estão habituados a achar que mandam no pedaço. Não andam tanto de transportes públicos, mas é vê-los por aí.

**No Público, citaram esta parte: «E só vos digo isto: eu não fiz nada de errado. Ainda. Ainda.» Mas ficou a faltar o que vinha a seguir: «Porque sou humana, posso cometer erros.» Parece-me muito ilustrativo que tenham cortado a parte em que a deputada lembra que é humana e tenham deixado o resto, que soa a ameaça.

***Jotinha recém-eleito para líder do CDS, ex-frequentador do colégio militar, ex-dirigente sportinguista que é contra o aborto, contra a expressão «casamento gay» e contra a «sexualização da educação». Estamos bem arranjadxs…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s