#tradwife: o revival da mulher recatada e do lar

No mês passado dei de caras com um artigo sobre um movimento novo chamado Trad Wife (esposa tradicional), originário dos Estados Unidos da América e que agora se espalha por alguns países Europeus, especialmente no Reino Unido, e no Japão. A definição deste movimento passa por uma volta ao papel tradicional de dona de casa e tendo como inspiração a esposa tradicional da década de 1940 e 1950. Fiquei curiosa e fui investigar. 

Ao longo da semana fui beber ensinamentos diretamente às fontes das TradWives: visitei os sites das principais influencers do movimento e das suas escolas de etiqueta (sim, elas têm escolas de etiqueta e de feminilidade, mas já lá vamos). Vi entrevistas, li artigos, analisei sites. E tive de parar, porque fiquei fisicamente doente com este revival, com este retrocesso gigante, com o paradoxo de vamos ressuscitar o feminino e a mulher. Contudo, o que me parece é que ao percorrer a estrada de ensinamentos TradWife, no fim do caminho transforma-se em um cemitério que celebra o aniquilamento da mulher como ser individual e independente. Que fique claro que o que me incomoda neste movimento nada tem a ver com a opção profissional destas mulheres: eu sou dona de casa e já falei aqui sobre isso. A sua vontade de apoiarem o seu marido em tudo o que ele necessite também não me faz confusão. Que se afirmem felizes e se sintam completas nesta escolha, faz-me ficar feliz por elas e por terem encontrado aquilo que as preenche e lhes dá sentido à vida. 

O que me incomoda são os seus cursos de feminilidade estereotipados, a meu ver degradantes para a condição feminina, que promovem uma sociedade em que as mulheres são apresentadas como fracas (física e psicologicamente), que não se devem envolver ou fazer política (porque esse papel é reservado ao homem, esse sim inteligente e preparado física e psicologicamente para esse papel), reservadas apenas a assuntos como o lar, a sedução romântica e a maternidade. Incomoda-me que este novo movimento seja apresentado como se fosse só mais uma nova tendência inocente de lifestyle, que se propõem a recuperar o poder feminino ancestral, e onde é ignorada a corrente política que estas mulheres advogam – que by the way elas afirmam não ter – mas que é evidente onde vão buscar as raízes.

“We say to feminists: thanks for the trousers, but we see life a different way”

— Jenny Darling, The Darling Academy

As fontes que consultei mostraram-me (e desculpem se vou generalizar, mas não conheço todas as TradWifes da internet) mulheres que:

  • se afirmam cristãs, justificando, muitas vezes, o seu papel de esposas tradicionais submissas e obedientes com passagens da Bíblia;
  • se afirmam orgulhosamente nacionalistas, decorando as suas casas com bandeiras referentes ao país que habitam, saudosistas do passado glorioso do país — as TradWives nos Estados Unidos da América estão especialmente ligadas aos movimentos de extrema direita e de supremacia branca;
  • se afirmam femininas e que cuidam da sua imagem para agradar o seu marido (felizmente algumas dizem que o fazem por si, para se sentirem bem);
  • a sua máxima preocupação é o sucesso profissional do marido, que não deve fazer absolutamente nada em casa, com a excepção de passar tempo de qualidade com xs filhxs, exercendo o seu papel de soberano da família;
  • todas consideram que as mulheres são seres fracos, física e psicologicamente, que devem reservar-se ao seu papel de mães e cuidadoras do lar;
  • baseiam as suas vivências no moralismo patriarcal de arquétipos como:
    • uma mulher deve ter como objetivo encontrar um marido
    • deve casar-se antes de ter o primeiro filho
    • divórcio não é uma opção: deves trabalhar o teu caráter e aparência para manter o casamento
    • só deves casar uma única vez

Mas os meus incómodos não se ficam por aqui. Incomoda-me a submissão cega, a perpetuação de uma hierarquia familiar patriarcal caduca (que por sua vez é transmitida às/aos filhxs destas mulheres), a canonização de um comportamento feminino artificial e preconceituoso, que baseia na teoria biologicista dos sexos, que ensina que a mulher deve ser ardilosa e matreira, comportamento esse baseado na aparência, na obediência e na manipulação e apoiante máximo dos papéis patriarcais destinados ao homem e à mulher. 

Incomoda-me o embelezamento de tudo isto e a forma como este ideais são difundido de forma cândida e glamourosa por essa internet fora. Incomoda-me que estas mulheres sejam hipócritas ao afirmem que quem deve trazer o sustento para a casa deve ser o marido, mas ganhem imenso  dinheiro com os seus livros, canais de youtube e instagram. E incomoda-me, porque nem todas as TradWives terão forma de ganhar o dinheiro e precaver o futuro, caso a brincadeira de TradWife dê para o torto.

Quando vemos os sites e os vídeos dessas influencers, o mundo das TradWives parece um mundo perfeito, glamoroso e pejado de harmonia e felicidade, altamente inspirado no movimento vintage. O que estas TradWifes não contam ou preferem ignorar é que as mulheres, submissas e obedientes das décadas de 1940 e 1950, que elas replicam e glorificam eram mulheres que viviam oprimidas, vítimas, muitas vezes, de casamentos infelizes e de violência doméstica que era comumente aceite por toda a sociedade da época, eram mulheres que não tinham voz política ou que não lhes eram permitidas escolhas.

Pensei em deixar-vos aqui alguns dos sites e blogs de TradWives para consulta, mas depois pensei: Não vou difundir isto ainda mais. Se quiserem é só pesquisar.

Muito, muito mais havia para dizer sobre esta nova tendência surrealista: ser dona de casa/gestora de casa/mãe a tempo inteiro/CEO do lar é uma escolha, ser TradWife é um tremendo retrocesso para a condição e história das mulheres.

Deixo-vos um pequeno excerto que dá uma pequena ideia sobre como vêm as TradWives o feminismo:

Below are excerpts from an article entitled Marxist Feminism’s Ruined Lives. It was written by Mallory Millett whose sister, Kate Millett author of “The Bible of Women’s Liberation,” was heavily involved in the beginnings of NOW and the move to infiltrate feminism into every area of society. It’s goal? Destroy the family. Read it and weep for our culture. Carefully ponder sending your daughters to college which are filled with toxic feminist teachings against God’s ways for them. Train them up in grace, femininity, and beauty. Let’s reclaim biblical womanhood for our daughters and steer them in the direction of the old, beautiful paths that God has for them.

— artigo “So Much Grace, Femininity, And Beauty Lost” no blog The Transformed Wife de Lori Alexander

Imagem de ArtsyBee

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