Um Passeio no Parque

Um Passeio no Parque

Esta semana não, que choveu sempre, mas na tradição de empregad*s de escritório em toda a história do capitalismo, costumo passear no parque à hora de almoço. Como o fazem, aliás, muitas colegas (mais mulheres, curiosamente): em grupo, sozinhas com um livro ou um podcast, para tomar um café, para almoçar nas mesas de piquenique, no bom tempo. É burguês mas é bonito. O parque é frondoso, há adolescentes e velhinhos em grupos (separados, obviamente) a ter as conversas parvas típicas das respetivas gerações, há gente de meia idade a ter as conversas parvas típicas das sessões de PT, há pavões e patos e gansos. E, na semana anterior, quando estava bom tempo, houve um flasher.

Contou-o uma colega: que estava a passear, como de costume, ao telefone com a mãe, viu um tipo alto e corpulento a passar por ela, um pouco mais à frente apercebeu-se de alguém a caminhar lentamente por trás dela, olhou para trás e viu o mesmo homem, de pénis na mão. Voltou as costas, afastou.se com um passo mais rápido mas não tão rápido que parecesse estar a fugir (para não incitar a perseguição), fez uma rápida geolocalização e percebeu que tinha várias saídas daquele caminho e que os jardineiros do parque estavam ao fundo de uma delas, elevou o volume da voz e repetiu várias vezes que estava no parque e que ia ter umas colegas que estavam mesmo ali. O homem não a seguiu mais e ela reportou a situação ao primeiro jardineiro que encontrou, que foi tentar localizar o homem.

Ainda não voltou ao parque. O tempo tem ajudado a não ter de ponderar demasiado na injustiça que é não poder desfrutar livremente de um espaço que é público e, por isso, seu. Quando digo que não pode desfrutar livremente dele, estou a falar daquela liberdade que todas as pessoas não socializadas com o medo da violência sexual têm: a de percorrer, ocupar, usar, desfrutar de qualquer espaço, público ou privado, sem medo. Não se pode ter medo daquilo que nem sequer se imagina que possa acontecer – pelo menos, a nós. Lembro-me de ter essa liberdade. Acho que qualquer pessoa socializada como mulher se deve lembrar. E apostaria que se lembram também de quão cedo acabou.

É revoltante a capacidade que esse medo tem de nos tolher os movimentos. Depois de algum bater punho da minha parte sobre a importância de ocupar os espaços, não ceder ao medo, take back the night (the lunch hour, caramba!), etc., pensei a outra coisa sempre tão útil: de certeza que há uma app para isso.

Se não querem deprimir com o estado do mundo para as mulheres, não procurem «rape whistle app» nas app stores. Porque há muitas (o artigo é antigo, mas não datou): Cria uma rede de contactos de pessoas que podem sempre ser notificadas da tua localização.Ligação rápida,acessível com um toque,a números de emergência. Track my phone. Filma. Fotografa. Apitos, sirenes, alarmes, sons ameaçadores. Para chegares em segurança do carro a casa, de casa ao trabalho, da rua ao carro. Para andares por estas ruas que são tão perigosas. (Mas não olhes para as estatísticas de violência doméstica, senão concluis que a casa é tão ou mais perigosa). Protege-te. Porque mais ninguém e mais nada o vai fazer.

Na mesma semana de bom tempo, calhou eu não ir ao parque porque tive, entre outros afazeres, um almoço com uma amiga espanhola, a trabalhar em Londres. Chega, inevitável, a pergunta pelo Brexit. Desconforto, diz ela, para além da incerteza, e das consequências financeiras que também não é agora que vamos sentir, é sobretudo desconforto: hooligans a cantar «fuck off» e a celebrar um chamado «dia de independência», um ambiente de xenofobia generalizada que a faz hesitar antes de falar em espanhol em público. Bom, mas isso não é de agora, diz ela, meio en passant, que já tinha acontecido uma vez, por exemplo, que estava no autocarro ao telefone com a mãe, a falar em espanhol, e teve de fazer um «já te ligo», que o homem sentado atrás dela não parava de murmurar a alto e bom som como estes «fucking foreigners» andavam a falar estrangeiro nos autocarros «deles», e aquilo podia correr mal.

Não sendo mãe, mas sendo filha, e filha em idade de me preocupar mais com os pais do que eles comigo (se é que isso alguma vez acontece), a imagem destas filhas ao telefone com as mães, seguidas por homens que lhes querem fazer mal, com uma simplicidade de conto de fada, choveu-me a semana toda naquela linda semana de sol. Todas aquelas mulheres ao telefone, com as mães, as amigas, as apps, a chamar.

 

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