O pior cego é o que não quer ver

Há uns dias, recordei uma discussão que em tempos tive numa caixa de comentários. É o pão-nosso-de-cada-dia, mas como o tema da paridade nos é mui caro achei que valia a pena partilhá-la aqui.

Uma eminência (ocupou cargos de grande responsabilidade no país) respondeu-me o seguinte quando eu lhe disse que haver uma conferência chamada «Pensar o País Inteiro» com 19 oradores homens e 1 mulher era uma anormalidade:

«Procurar forçar a existência de mulheres em painéis deste tipo, escolhendo pessoas que não estão grandemente preparadas para produzir coisas relevantes sobre o assunto, porque são mulheres é criar condições para que a falta de relevância do que dizem seja atribuído ao facto de serem mulheres em vez de ser atribuído ao facto de estarem mais mal preparadas neste assunto em concreto.»

Sim, protejamos as mulheres delas próprias!! «Coitadas, depois faziam má figura e toda a gente acharia que é por serem mulheres». Desde quando é que um homem a fazer má figura numa conferência vê o seu sexo inteiro posto em causa? Isto é dos argumentos mais absurdos que já ouvi.

E todos aqueles 19 homens estão mais bem preparados do que qualquer mulher na área? Não há nenhuma mulher preparada para produzir coisas relevantes sobre o assunto? A sério?

Pois. Há os grunhos que andam na Universidade da Vida e depois há os que dão aulas nas universidades.

Entretanto, o tema da conferência era os incêndios. Ao que parece, é uma área onde há pouquíssimas mulheres capazes de dizer coisas relevantes… (E, mesmo que assim fosse, isso só por si não seria estranho?)

Remeti o senhor comentador para a página Mulher Não Entra, naturalmente. A resposta dele é a mesma que darão centenas de organizadores de conferências por esse Portugal fora. Para muitos, as mulheres só têm coisas a acrescentar quando são «temas de mulheres». Incluir mulheres seria forçado, não seria natural. Natural é que apesar de serem 50% da população tenham apenas 5% de representação. Respeitemos a ordem natural das coisas, nada de interferir. Caso contrário, podemos ser injustos.

Photo by Ante Hamersmit on Unsplash.

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