O Barro de que Somos Feitos

Desde que tudo isto começou, cá por Portugal, que o avanço imparável e viral do medo me fazia lembrar alguma coisa, e não percebia exatamente o quê. Aquela sensação de já ter ouvido esta cantiga (mas sem Shazam à mão), já ter ouvido estas histórias, já ter visto este show. Claro, não me lembrava porque não tinha sido eu a vê-lo e a vivê-lo (ou só indícios), mas quem por ele passou, deixou história: 1981 e o início da epidemia da SIDA.

Então, porque a minha maneira de lidar com quando o mundo acaba é ouvir as histórias que contam as pessoas que sobreviveram ao mais recente fim do mundo, fui rever o espantoso Anjos na América. Full disclosure: originalmente comprei o DVD porque reunia três condições que para mim são irresistíveis: drag, a Meryl Streep e estar em saldo. Mas os primeiros minutos comunicam imediatamente ao teu corpo algo como «espero que tenhas trazido pipocas e que não precises de ir à casa de banho, porque vamos ficar aqui o tempo que for preciso para ver isto tudinho.» (Como o Al Pacino dizia acerca de Ricardo III, que tinha o melhor início de qualquer história de toda a literatura: a palavra «agora», que mete o espectador imediatamente no ali que o autor quer criar).

Abertura de Anjos na América: um rabi a fazer o elogio fúnebre da avó de uma das personagens centrais, um discurso extraordinário sobre origens, destinos e viagens:

«You do not live in America – no such a place exists. Your clay is the clay of some litvak shtetl, and your air is the air of the steppes, because she carried that Old World on her back, across the ocean, in a boat! And she put it down on Grand Concourse Avenue… on Flatbush. You can never make that crossing that she made, for such great voyages in this world do not any more exist. But every day of your lives, the miles – that voyage from that place to this one – you cross. Every day! You understand me? In you, that journey… is.»

E percebemos, ah olha, é sobre terras, é sobre a construção da pertença, é sobre a forma especificamente humana de habitar um lugar, é sobre a identidade enquanto viagem, é sobre a América enquanto sinédoque do tornar-se, do vir a ser, sobre a terra nova que são todas as identidades, é sobre a transformação de um espaço numa comunidade, num sentido, num país. É sobre a América, resumindo.

E como em todas as histórias muito bem contadas, depois do funeral, seguimos as personagens daquela cena até um momento fulcralmente trágico, horrendo, dilacerante – e depois corta para a apresentação de novas personagens, deixando-nos de coração nas mãos. Vamos seguindo as histórias delas (quase sempre em relação e interação, uma das coisas que adoro nesta peça é que não tem muito protagonismo), e a forma como se entrecruzam, e os dilemas trágicos, horrendos e dilacerantes com que se confrontam. Lembro-me de ver o filme pela primeira vez e ficar assombrada por questões morais e éticas – quase como um debate rabínico, ou um forum de discussão sobre o The Good Place. O que fazer? Existirá um bem absoluto? O mal poderá ser relativo?Que peso tem a intenção na correção moral e ética? O momento da decisão moral é sempre uma vertigem? Como sabemos se os nossos princípios morais e éticos são realmente nossos? Como devemos agir? Esta personagem é um grandessíssimo filho da puta, ou é só uma pessoa decente numa situação filha da puta? Ao revê-lo, o tema que me bateu foi outro; as questões morais ainda estavam todas lá, mas a questão centralíssima era, agora, a verdade. O que sabemos acerca de nós mesmos e dos outros, o que fingimos não saber, o que vemos, de que desviamos o olhar, o que assumimos e de que verdades fugimos. «Nothing like the hard wall of scientific fact,», diz Prior, um dos personagens centrais, logo no início, quando começa a manifestar os primeiros sintomas de SIDA. Enfrentar a verdade é o grande tema desta peça; e mesmo quem não a queira enfrentar, não tem escolha, porque – e aí entra o elemento de realismo mágico – a revelação acontece mesmo a quem feche os olhos, os anjos entram-nos pelos olhos adentro. E pensei, ah olha, isto afinal é sobre anjos, é sobre revelações, é sobre a verdade dura, crua, inescapável, mas libertadora.

Libertadora porque (spoiler!) não morrem todos, no fim. O mundo – ou seja, os mundos de cada uma destas personagens – chega ao fim, e continua. A América está a tornar-se menos tolerante, mais fechada, é a ascensão do reganismo e do conservadorismo religioso, mas, no fim do filme, eles estão lá. Alguém viu tudo e ficou para contar a história. E, mais importante ainda: estas pessoas queer, mesmo numa América que se está a tornar mais perigosa para todas as diversidades, são pessoas queer e estão lá. Continuam a existir. E não há como apagá-las. A viagem que fizeram, de dentro do armário até à existência pública e cívica em plenitude é, tal como a emigração da avó na abertura do filme, uma viagem que se faz todos os dias, e que não tem retorno.

Vivemos num tempo assustadoramente mais conservador do que aquele que o filme relata (e denuncia), e temos consciência de quão fácil é perdermos direitos. Nós, portugueses, ainda ontem nos deparámos com isso: mesmo que temporariamente, temos os nossos direitos suspensos, na prática, perdidos. Mas – e foi este o espírito que baixou de Anjos na América, a primeira vez que o vi, e de que me lembrei ontem ao revê-lo, à mesma hora em que o Presidente da República anunciava estas limitações às nossas liberdades – há um poder imenso, e que tantas vezes ignoramos, no simples facto de existirmos. Exprimiu-o inesquecivelmente Alice Walker em A Cor Púrpura, quando Celie, finalmente livre da sua vida de abusos, exclama: «I’m poor, black, I may even be ugly, but Dear God, I’m Here!» Para pessoas queer, racializadas, genderizadas ou de alguma forma inseridas em categorias de opressão, existir já é resistir. E a força dessa simples resistência é tal, que é isso mesmo que as repressões tentam suprimir. Mas sem sucesso, porque a viagem de existir da alteridade é uma viagem sem retorno. Onde já chegámos, ninguém nos tira.

Ah, olha, afinal o filme era sobre isso.

Por muitos mundos que acabem, por muitos direitos que nos tirem, por muitas liberdades que nos cerceiem, nós já cá estamos, nós já existimos. Veio um Reagan, a epidemia da SIDA, o buraco do ozono e ainda cá estamos; tem vindo muito pior que um Reagan, novas epidemias virais, novas crises climáticas, e cá estamos e estaremos. E quando vier o próprio do fim de tudo, ainda assim, teremos aqui estado.

A viagem que foi feita não se desfaz.

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