A quarentena das grávidas

Na maternidade onde dei à luz, o protocolo da instituição ditava que as mães passassem a comer numa zona comum, depois do parto, em vez de lhes ser levado o tabuleiro ao quarto individual. A ideia, segundo me foi explicado, é promover uma primeira separação saudável entre puérpera e recém-nascido (que fica ao cuidado do acompanhante) e, sobretudo, pôr as várias mulheres a conversar entre si, partilhando as suas experiências. Quando fui fazer as minhas refeições a esse espaço, como havia previsto, todas as mães estavam em silêncio, cada uma digerindo as suas vivências íntimas. O único som era o da televisão, àquelas horas transmitindo o telejornal (não há área comum, neste país, onde não zumba uma televisão ou um rádio com «música ambiente»). Era início de Fevereiro e, embora estivesse embrenhada nos meus pensamentos, lembro-me das notícias sobre o novo vírus que continuava a causar grande preocupação na China. No entanto, por ser longe (o que é «longe», num mundo tão globalizado?) e por estar a viver um acontecimento monumental, pus o assunto de lado.

Nos dias que se seguiram, como convém, não vi televisão nem li jornais, estive na bolha amorosa da recém-maternidade. Quando finalmente espreitei o mundo-lá-fora, os meios de comunicação nacionais e internacionais continuavam a falar do vírus, das medidas que a China tomava para o conter e de quão difícil estava a ser conseguir fazê-lo. Por estar ocupada e por demais habituada aos exageros dos media, desvalorizei. Mas as notícias não paravam. Os números aumentavam, o problema alastrava agora a outros países. Disse a mim mesma que sim, estávamos perante um caso sério, mas que afligia sobretudo pessoas já fragilizadas, que muitos dos infectados nem sintomas tinham, que não havia razão para alarme. Ou seja, como ser humano (e optimista) que sou, mantive-me em negação.

No início de Março, ainda queria acreditar que o problema estava contido. Porém, chegou o dia em que a realidade se abateu. Já não sei qual foi a notícia que o espoletou, mas apercebi-me subitamente de que não era possível continuar a desvalorizar o novo coronavírus SARS-COV-2. (Terá sido quando o meu marido me veio dizer, enquanto eu dava de mamar, que ia sair para fazer compras para duas semanas?) Nesse momento, fiz uma inflexão apertada e comecei a pensar no presente e no futuro de outra maneira. Uma das medidas que tomámos em família foi insistir com o meu pai, de 79 anos, que viesse viver connosco, uma vez que sozinho no centro da capital estaria mais exposto a riscos. Poucos dias depois, aceitou a ideia e fomos buscá-lo. Desde então que somos seis mamíferos cá em casa e, seguindo as recomendações, saímos apenas para o passeio dos cães, a ida pontual ao supermercado ou à farmácia.

Felizmente nenhum de nós adoeceu, mas tenho pensado constantemente na sorte que é termos tecto e comida e, sobretudo, o bebé já ter nascido e ser saudável. Nasceu antes de todo este caos se ter instalado no país e no coração das pessoas, e tem sido a melhor das distracções, uma alegria constante. Porém, tendo a experiência do parto ainda tão fresca na memória, preocupo-me todos os dias com as grávidas (e com os refugiados e com os sem-abrigo e com os mais pobres, mas sobretudo com as grávidas — e ainda mais com as grávidas em campos de refugiados, com as que não têm casa ou dinheiro algum).

Este clima de alta ansiedade em relação ao contágio e à estabilidade da economia, esta ideia de que os recursos hospitalares estão saturados ou serão em breve levados ao limite, só podem deixar milhares de mulheres em pânico. Consultas de rotina canceladas, centros de análise se ecografias fechados e, pior do que tudo, instruções nos hospitais para que as mulheres não sejam acompanhadas por mais ninguém no momento do parto (supostamente para diminuir o risco de infecção) ter-me-iam levado às lágrimas. Dar à luz em isolamento forçado equivale a tortura e contraria as recomendações da OMS.

Escapei a tudo isto por uma unha-negra e sinto enorme solidariedade para com quem está nessa posição. Felizmente, há sempre algo que podemos fazer. Neste caso, o meu grãozinho é partilhar os recursos que a maravilhosa e imprescindível Associação Portuguesa pelos Direitos da Mulher na Gravidez e Parto preparou para ajudar as grávidas nessa situação, os documentos «Perguntas e respostas sobre COVID-19, gravidez, parto e aleitamento Organização Mundial de Saúde» e a «Minuta Covid-19 para acompanhar plano de parto APDMGP», que podem descarregar no fundo da página de Documentos do seu website: https://associacaogravidezeparto.pt/documentos

Os direitos das mulheres são difíceis de assegurar; os direitos das grávidas e parturientes, mais ainda. Num momento de excepção, é muito fácil desumanizar o outro, sobretudo se for do sexo feminino, sobretudo se for visto como «paciente», sobretudo se estiver emocionalmente vulnerável. Por isso mesmo, a informação é a melhor arma. Convido todas as grávidas, todos os seus familiares e todos os profissionais de saúde a fazerem valer estes direitos. Que o medo do vírus não roube a ninguém o seu bem-estar, a sua paz e os seus legítimos sonhos. Pelo menos não mais do que o estritamente necessário.

A minha quarentena está a ser em casa, gozando a licença de maternidade entre quatro paredes quando preferia estar a dar passeios. Estou a vivê-la concentrada no bebé, saboreando cada pormenor deste milagre chamado vida, tentando não pensar demasiado no futuro, dando graças por todas as graças do presente.

Nem todos os momentos são fáceis, claro, mas quem me dera que estes milhares de mulheres pudessem ter a mesma sorte que eu.

6 de Abril de 2020

PS: entretanto, parece que a DGS está a ponderar alterar algumas das regras: https://www.sabado.pt/portugal/detalhe/coronavirus-dgs-vai-rever-regras-para-partos-e-amamentacao

Photo by Aditya Romansa on Unsplash

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