Ai, a sorte que eu tenho

Isto não vem de agora. Já enquanto namorávamos, várias vezes no dia do nosso casamento e desde que estamos casados que ouço: «Ai, Rita, tens tanta sorte em ter alguém como ele ao teu lado!»
É verdade, tenho sim. Sou a primeira a sabê-lo. Vivo apaixonada pelo meu marido desde o dia em que nos conhecemos. Foi uma sorte termo-nos encontrado, sem dúvida. Mas a sorte não explica tudo. Foi também saber escolher. E investir muito tempo e energia na relação para ela ser assim tão boa. Dou muito valor ao que tenho, e bem sei o raro que é.

No entanto, apesar de o saber em primeira mão, estão sempre a querer lembrar-mo. «Que sorte que tens!» Sim, o meu marido é afectuoso (como eu), responsável (como eu), divide as tarefas domésticas (adivinhem quem faz a outra metade), apoia-me, respeita-me e admira-me (como eu a ele).«Ele gosta tanto de ti!», dizem-me. Como se eu não gostasse dele, como se ele gostar de mim não se verificasse na proporção exacta do que eu gosto dele.

Assim, pergunto-me – retoricamente – quantas vezes lhe dirão o mesmo.

Ao que parece, um homem dedicado e que não bate na mulher merece uma estátua. (Recentemente, uma amiga mais velha lembrou os funerais a que assistiu em criança, em que as viúvas chorosas diziam: «Foi um grande homem, nunca me levantou a mão.» Essa é a fasquia?!)

Atenção, o meu marido é fantástico. Por isso me casei com ele. Não lhe faltam qualidades e gabo-o sempre que posso. Nunca me surpreende que o elogiem. O que me incomoda é o tom maravilhado e a recorrência destes comentários dirigidos a mim. Tudo o que ele dá recebe em troca, mas sou eu quem tem muita sorte.

Sobretudo agora que fomos pais, é ver toda a gente derretida com o seu desvelo. O mesmo que eu demonstro, aqui e ali até com mais desembaraço e competência – ou não tivesse sido socializada para o cuidado, que isto basta ser mulher para ter sido muito mais preparada para o cuidar-dos-outros, especialmente de um bebé.
Mas ainda ninguém me veio dizer (ou foi dizer-lhe a ele, tanto quanto sei) o óptima mãe que eu sou. Ele diz-mo. E eu digo-lhe o óptimo pai que é. Mas ninguém me elogia especialmente.

E é aí que está toda a questão. Nas expectativas. Nesta vida, uma mulher esfalfa-se e não faz mais do que a sua obrigação. Um homem esforça-se acima da média e é um herói.

O meu marido tem sido um companheiro incrível ao longo dos anos. Como pai, está a mostrar-se exactamente como eu esperava. Dá sempre o seu melhor e quer fazer cada vez melhor. Crescemos juntos todos os dias e eu dou imenso valor a isso. Mas ele não é «uma grande ajuda em casa, cumpre apenas a sua obrigação. Tal como eu. No entanto, é tratado como excepcional.

É certo que há 30 anos metade dos pais portugueses (ou mais!) nunca havia trocado uma fralda, mas isso não é motivo para me dizerem “não te podes queixar” se eu por acaso me queixo.

Agora que penso nisso, ainda não me queixei verdadeiramente de nada desde que fomos pais. Eu própria tenho estas expectativas tão interiorizadas que mordo a língua sempre que me apetece criticar. E, se por acaso reparo em algo aquém do brilhante da sua parte, sou a primeira a dizer a mim mesma «mas não tenho motivo de queixa, ele é inexcedível». Que parte disto será real e que parte disto será distorcido pela forma dúplice como a sociedade olha para o desempenho de pais e de mães? Quanta gratidão, ao certo, devo sentir? Não sei.

Afinal, se ficamos babados quando vemos um pai no parque infantil, a mudar uma fralda, a interagir afectuosamente com o seu bebé ou a empurrar um carrinho – coisas que feitas por uma mulher são invisíveis ou então susceptíveis de críticas – o que é que isso diz sobre a nossa sociedade e sobre nós próprios?

Uma coisa decidi: da próxima vez que me disserem, embevecidos, «tens tanta sorte», vou responder como respondo sempre – «tenho mesmo» -, mas acrescentarei: «e ele também!»

Photo by taylor hernandez on Unsplash

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