Do alto do meu privilégio branco, cisgénero, de classe média, eu lamento.

Os tempos que correm não me permitem ficar calada. Não deviam permitir que ninguém ficasse caladx. Entre assassinatos de negrxs, femicídios, propostas de cercos sanitários a famílias ciganas, famílias que não se conseguiram proteger com um confinamento digno, associações e grupos (supostamente) «feministas» que são contra a legalização da prostituição e transfóbicas, discursos de extrema-direita todos os dias nos jornais em várias partes do mundo, crianças refugiadas que afirmam que querem morrer — a lista começa a ser interminável — ninguém se devia calar.

O meu privilégio branco, cisgénero, de classe média, nunca me vai permitir compreender na totalidade o que é ser negrx, ciganx, refugiado, LGBTI. Consigo ser empática, enojar-me com o comportamento dxs outrxs (muitas vezes com o meu próprio comportamento inconsciente e que tento mudar todos os dias), ficar cheia de raiva, mas no fundo sei que tudo isto não me afeta diretamente e, portanto, não sei o é viver dessa forma. Como um homem, cisgénero, nunca saberá o que é viver no corpo de uma mulher cisgénero, com todas as condicionantes e premissas que a vivência no feminino cisgénero tem, com todos os estereótipos que são impostos, com as discriminações que vivemos. Posso imaginar o que são as vivências das mulheres cisgénero negras, mas nunca as compreenderei na totalidade. Posso dar-lhes a mão, mas nunca, nunca saberei — que «sorte» a minha! — o que é ter de olhar todos os dias por cima do ombro, sem me sentir segura, estar sempre à espera de um comentário depreciativo, levantar-me às cinco da manhã para ir trabalhar, viver constantemente com o preconceito, a vida dxs filhxs que serão vítimas do mesmo, do de sempre, do interminável. Nunca o saberei.

Vejo muitas pessoas brancas que se indignam quando lhes atiram o privilégio branco à cara, não o reconhecem. Ripostam com: — Isso é racismo reverso. Ou então jogam a cartada do: — O privilégio branco não existe. 

Não, carissimxs, não é racismo reverso, porque o racismo reverso não existe. Como não existe ideologia de género. Esses termos foram criados para confundir as pessoas, para lhes meter medo nas entranhas, para as dividir, enfraquecer e justificar o injustificável. E as pessoas brancas, escondidas no privilégio que não reconhecem ou admitem ter, preferem acreditar que tudo está bem, porque sabem que nunca vão experienciar as vivências discriminatórias que vivem as pessoas que não tiveram a «sorte» de nascer brancas, cisgénero, classe média ou alta. Digo «sorte» porque não devia ser sorte nenhuma, ninguém devia ter de sentir que teve o azar de nascer negrx, ciganx, trans, ou outra coisa qualquer. Porque a discriminação não devia, pura e simplesmente, existir. Utopia, claro. Mas não devia. 

Tento contribuir para melhorar o mundo de quem não teve a minha «sorte». De quem não nasceu priviligiadx. Tento ser justa, ativa, esclarecida, ler o mais possível, divulgar informações o mais possível, educar-me o mais possível, educar a minha filha, xs amigxs da minha filha, os pais dxs amigxs da minha filha. Mas todos os dias sinto que não é suficiente. Do alto do meu privilégio, não sei fazer melhor, não consigo. E choro em silêncio.  

No refúgio privilegiado do meu monte alentejano, grito. Mas o meu grito não chega, não é suficientemente forte, é preciso agir. O que eu faço — conversar com pessoas, discutir o que se está a passar neste momento, divulgar notícias, fontes, testemunhos nas minhas redes sociais — não chega. Estou consciente disso. E lamento-o. Mas não sei fazer melhor.

 

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