Quão curto é demasiado curto?

Estava calor, estava um daqueles dias dos 30 e muitos graus e eu tinha muitos recados para fazer. Já tenho as pernas um bocado morenas (um tom acima do habitual branco folha de papel) e o exercício tem-me feito sentir mais segura da sua forma. Escolhi uma camisa daquelas que é mais comprida e dá para vestido, com uma risquita azul e branca. Achei que estava bem. Não ia sofrer com o calor nem estava propriamente com um ar andrajoso, como diria a avó Elisa.

Photo by Isabela Kronemberger on Unsplash

Voltei ao espelho várias vezes: ‘será muito curto? será que devia usar isto assim? bem, está calor. Que se lixe.’ Um condutor sorriu na passadeira para mim, pensei que o senhor tinha sido simpático, agradeci e fui à vida. Um motociclista gritou qualquer coisa enquanto me deixou passar, fiz de conta que não ouvi, mas a justiça fez-se ali porque foi ultrapassado por alguém e desatou a gritar mais alto. Segui o dia, sempre com a ideia de que tinha as pernas demasiado à mostra e só no final do dia a coisa ficou pior. Ironia das ironias, estava a sair de uma concentração anti-racismo, e ouvi uns assobios e uma daquelas frases sobre fazerem-me não sei o quê. Continuei a falar e fingi que não era comigo. Mais tarde, entrei brevemente num café e um outro homem veio abordar-me com perguntas, até que lhe disse que ele não podia falar comigo, que não lhe iria responder, acho que até fui educada demais.

Saí desse dia a pensar que a culpa era da camisa curta. Que a culpa era de eu mostrar as pernas. Que escolha infeliz tinha feito, que me tinha feito passar por aquilo tudo num só dia. Eu não estava a pedir nada daquilo. Mas o meu espaço foi invadido, várias vezes. Porque por algum motivo, carne a mais apela ao piropo, à invasão, ao não-consentimento. Não me admira então a dúvida inicial, ser ‘demasiado curto’.

Demasiado porquê? Porque a roupa nos defende destes olhos, porque tivemos desde miúdas que nos defender e porque se num dia temos calor, vestimos pouco tecido e se por acaso estamos num sítio mais escurinho, estávamos a pedi-las. A culpa foi nossa, a roupa era demasiado curta.

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