Novembro de 2020…

Estamos neste momento do século XXI mas ainda há quem viva na Idade Média. A revista LER publicou esta linda crónica na sua mais recente edição e a coisa não podia ficar em branco. Aqui fica a dita e o que lhes escrevi em resposta.

A/c de Francisco José Viegas, editor da revista LER:

A LER publicou na sua edição de Novembro uma opinião inenarrável assinada por Eugénio Lisboa. No primeiro parágrafo, o autor chama «virgens ofendidas» a vítimas de violação e acusa-as de uma «operação de marketing» quando vêm a público acusar os seus agressores. Isto é nada menos que espantoso. E uma verdadeira vergonha. Aos olhos do articulista, o gabarito artístico do violador isenta-o. Aliás, acha o violador a verdadeira vítima, por ser «perseguido» e «censurado». O autor fala de vigilantes, sempre prontos a censurar. E, previsivelmente, imaginar-se-á ele próprio uma grande vítima de censura, no final desta minha carta. A enorme censura de ser um homem branco ainda com algum poder no seu meio, publicado sem restrições numa revista de circulação nacional.

Começo por deixar algumas notas sobre as ideias alarves do opinador, que me parece importante refutar, e depois irei ao cerne da questão.

  • Diz Eugénio Lisboa: «Se fôssemos a banir admiráveis obras produzidas por indiscutíveis sacanas, o que seria do nosso património literário e artístico…», e cita uma fiada de nomes sonantes (sempre do sexo masculino), indo de pedófilos a snobes, passando por fascistas, reconhecendo que poderia continuar a listá-los até o braço lhe cair. Ou seja, as belas obras estão acima do sofrimento de pessoas reais e pouco importa discutir o carácter destes criminosos, questão mesquinha ao pé da Arte. Quem ousar criticar os Grandiosos Criadores, aliás, será alvo de ridículo. Na verdade, acusando os «vigilantes» de quererem silenciar os seus Artistas Magistrais, é Eugénio Lisboa quem pratica censura. As vozes das vítimas são para ser desacreditadas. O #metoo é um exagero, um bando de histéricas e aproveitadoras, internem-nas no manicómio. 
  • E que censura é essa de que Eugénio Lisboa se queixa? De uma censura que não existe. Polanski é perseguido? Bom, além de ser procurado pela Polícia dos EUA, é perseguido por prémios aos seus filmes e por manifestações de apoio nacionais e internacionais, continuando a trabalhar com toda a liberdade. Woody Allen é censurado? Só se lhe estiverem a tapar a boca com os cheques chorudos de editoras que publicam com grande sucesso a sua versão dos acontecimentos. A editora original, no seu direito, desistiu de publicar as suas memórias, mas Allen não só ficou com o adiantamento que lhe haviam dado como rapidamente arranjou editora alternativa e ganhou muita publicidade à conta do caso. («Fui censurado, logo existo, preço a combinar», isso sim!) Ou seja, falar em censura é um puro fantasma. Lamúrias de quem está a perder relevância. Até hoje, não foram banidas obras algumas.
  • Para Eugénio Lisboa, os que ousam criticar quem dá plataforma a estes homens com passados duvidosos são obtusos em fúria, boçalmente incultos. E, segundo ele, em breve vamos começar a ver fogueiras onde todos os clássicos se queimarão. Outra ideia falaciosa, um papão absurdo que brande como se fosse um facto iminente. Como se analisar com sentido crítico obras ou biografias problemáticas do passado e do presente fosse censurá-las. Mais alhos e bugalhos com vista a preservar o statu quo, portanto.
  • No fundo, este falso debate em torno da separação entre a Obra e o Homem — quem foi que lhe disse que não podemos condenar um e apreciar o outro em simultâneo? —, todo este zelo persecutório das vítimas a bem de uma não persecução dos perpetradores, é uma manifestação de quem está a ver o seu velho mundo mudar de configuração e se sente desconfortável com isso. Porquê tanto desconforto é a pergunta que fica no ar.

Estas ideias cruéis e ignorantes são perigosas porque fazem escola e incitam comportamentos misóginos (a violação e a violência doméstica são crimes que não param de aumentar em Portugal, como os números oficiais bem mostram de ano para ano, e tudo isso parte deste caldo cultural que protege agressores e menoriza vítimas). Porém, são opiniões muito banais e não falta quem partilhe delas, inclusivamente juízes. Que Eugénio Lisboa as tenha não me surpreende. O motivo desta carta é outro: o papel da LER.

Um editor é alguém que escolhe. Um editor publica aquilo que acha importante dar a conhecer. Se aposta num texto, não pode lavar daí as mãos dizendo que a opinião é de outrem. Há uma cumplicidade inerente. Assim, das duas uma: ou a direcção da LER concorda com a opinião do articulista e é ainda mais condenável do que este porque, além de comungar do mesmo ideário problemático, ainda o difunde; ou, então, reconhece que a opinião do articulista é vergonhosa mas aceita publicá-la na mesma, demitindo-se da sua responsabilidade editorial. Há sempre uma escolha moral em jogo. Publicar uma opinião, amplificá-la, nunca é algo neutro, não há isenção possível. O editor pode concordar mais ou menos, naturalmente, mas há certos limites que, atravessados, o obrigam a tomar uma posição. Dizer «a opinião só pertence ao autor» é hipócrita. Quem lhe dá plataforma está moralmente implicado. Tão ladrão é o que vai à vinha como o que fica à espreita.

Dizem-me que é duro recusar publicar um texto de um autor a quem se deu um espaço de opinião. Será duro. Mas para quem não é mole faz-se assim: «Ó Eugénio, pá, queres mesmo dizer aquilo que dizes no primeiro parágrafo? Pensa bem, pá. Estás a chamar virgens ofendidas a mulheres e crianças que terão sido violadas. Não podemos imprimir isto assim, pá. Publica lá estas páginas do teu diário noutro lado e arranja-nos um tema diferente.»

Vivemos num país com liberdade de opinião e de expressão, felizmente. Liberdade conquistada e mantida com muito esforço e mérito. Mas liberdade implica responsabilização. Eugénio Lisboa pensa o que quiser e a LER publica quem quiser, mas não estão imunes a críticas. Assim, eu gostaria de saber de forma inequívoca como se posiciona a direcção da LER face à suspeição levantada por parte do seu articulista nas suas páginas de que as vítimas que vêm a público denunciar violações querem é publicidade. Não quero calar os Eugénios Lisboas, nem tal seria possível mesmo que quisesse. Gostaria era de saber o que levou a LER a emprestar o seu megafone a estas ideias.

A liberdade de opiniões existe, precisamente, para podermos discuti-las e hierarquizá-las. Cada um tem direito à sua opinião, mas as opiniões não valem todas o mesmo. Há opiniões moralmente desprezíveis. Podemos ignorá-las ou promovê-las. Neste caso, a LER fez uma péssima opção.

Rita Canas Mendes

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