E, descalça, ando sobre ti.

A minha respiração é sempre pesada. Pesada e silenciosa, não vão as sombras ouvir-me.

Respiro fundo, sem saber como dançar esta música sagaz que me rasga as entranhas. Que bicho incómodo que sempre se move, dentro do meu estômago, embrutecendo-me. Olho pela janela. Uma vez. Duas. Todas as vezes que a vislumbro. Tenho de estar preparada para quando chegares, tolhendo caminho, ébrio e bovino, até encontrares a minha cabeça. São todos os dias, todas as manhãs, todas as tardes, todas as noites, todos os dias.

Respirei o orvalho da manhã e resolvi-te na minha cabeça. A mesma que esmurras e bates e tolhes sem perdão, porque alguma coisa transforma as tuas mão em pistolas e bastões. O dia passa num entremear, miando, que deambula entre esconder-me no vão das escadas ou no sótão, para que não me encontres, e cerrar os punhos para afastar o medo e receber a coragem que bebo em cada gole.

A minha respiração é sempre pesada. Vou vestir a pior roupa que encontrar.

Saio do quarto feliz, porque passaram-se anos desde a última vez que abotoei os botões deste vestido. Quando o arrancaste do meu corpo, pensei que era porque me querias foder. E quiseste. Mas não foi o teu pénis que entrou na minha vagina, foi o teu punho, martelo doloroso, que me penetrou na alma e rompeu os intestinos. Demos assim início ao ritual que se tornou diário. Aquele em que devo sempre respirar baixinho e nunca, mas nunca, murmurar. A dança do vestido vermelho, já esfarrapado.

Sou devota de facas. Copos. Garrafas. Panelas. Jarras. Tudo serve para te espancar, personificado na almofada do sofá. Já lhe cozi a fronha vermelha. Assim, torna-se mais fácil imaginar que te acerto e escorres pelo chão em sangue. E eu, retiro cerimoniosamente os meus chinelos, arrumo-os e, descalça, ando sobre ti.

A minha respiração é sempre pesada. Assobio Pânico em dó.

Chega a ser comovente a coragem que tenho quando não estás. Chego a acreditar que entre um vai e um vem, um carro te atropela na rua e glorifica o meu sofrimento, o meu medo constante, os meus tremores de noite e de dia.

Estou pronta. Respiro solta.

Fui despir o vestido, não fosses querer arrancá-lo com o martelo e o vesti-lo com o agrafador elétrico. Vesti-me de sempre. De lágrimas, medo e frémitos.

Ouço-te os passos na entrada. Nos poucos segundos que faltam para entrares em casa, dou um último gole no veneno que preparei. Herança das bruxas que me rodeiam a cabeça, dando-me náuseas e culpando-me por me manter cativa. Elas gritam nos cantos conspurcados da minha cela, onde muito do meu sangue respingou pelas paredes, salpicos de dor. A chave na porta. Esse som que me paralisa, porque já sei o futuro da tua entrada. Abres a porta. Os cães ladram na rua, adivinhando que hoje morre o medo.

Estou pronta. Fronha vermelha na mão.

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