Que o abuso de poder sobre os nossos corpos acabe de vez.

Quando falamos em abuso de poder, de uma forma geral, todas as pessoas ficam indignadas, furiosas, sentem-se ultrajadas e atacam de imediato quem perpetrou esse abuso de poder. Nem se preocupam muito com a presunção de inocência. O caso muda de figura quando falamos de abuso de poder sobre corpos, acima de tudo femininos. Aí, a vitima é, logo à partida posta em causa e o seu testemunho alvo de escrutínio de todos. E o agressor, alvo de beija-mão e indulgências.

Esta diferenciação da opinião pública, que age de forma distinta perante abusos de poder distintos, provoca-me náuseas. Abuso de poder é sempre abuso de poder, seja político, seja institucional, seja físico. Julgar sempre a vítima, seja de assédio, seja de abuso sexual, colocando-se em questão os seus princípios, as suas motivações, a sua verdade, mostra muito a sociedade patriarcal, misógina e que continua a viver sob o jugo do machismo estrutural.

E se, de repente, todas nós vos contássemos os episódios de abuso de poder sobre os nosso corpos que vivenciámos? Colocariam a palavra de todas em causa? Ou será que, finalmente, parariam para pensar e olhar com olhos de ver?

Pois, bem. Eu começo. E acreditem que este é um processo doloroso. Mas se, para a sociedade mudar, tivermos de reviver os nosso traumas, falar sobre eles, gritar aos quatro ventos – EU TAMBÉM! – pois que assim seja.

A primeira vez que senti abuso de poder sobre o meu corpo tinha 5 anos, ou perto disso. Ele uns 7 anos. Confiava nele, brincávamos regularmente juntos. Lembro-me de o sentir em cima de mim e de me ter prendido as mãos. Da sensação de não poder fazer nada. Senti-me confusa, suja, cheia de medo e com a certeza de que aquilo não era certo. Confiava nele. Só percebi o que aconteceu 25 anos depois, mas essa imagem esteve sempre presente na minha memória.

Lembro-me de, pela mesma altura, teria entre 5 e 7 anos, estar a brincar aos pais e às mães com um outro menino, 2 ou 3 anos mais velho do que eu. Brincámos durante anos. Sempre sem supervisão de adultos. Normalmente até fora do olhar, da visão dos adultos. Agarrou-me, apalpou-me, tocou-me na vagina, beijou-me. Afinal, era assim que se brincava aos pais e às mães. Lembro-me de me sentir suja, incomodada, confusa. Acima de tudo com medo que ele contasse aos meus pais. Sempre com a sensação de que aquilo estava errado. Muito errado.

Mais tarde, durante a adolescência, senti variadíssimas vezes abuso de poder sobre o meu corpo: homens que me mostraram o pénis na rua, que me assediavam na rua, que me faziam sentir suja, incómoda, com medo. Tinha a certeza de que aquilo não era certo.

Rapazes que me obrigaram a tocar no seu pénis, que me apalparam, sempre sem que eu o consentisse. O meu silêncio devia ter servido de não. Mas não serviu. Tinha a certeza de que aquilo estava errado.

Quando passei a responder – ainda que a tremer – aos homens que me assediavam com piropos na rua, o medo voltava: as respostas eram agressivas e insultuosas (era o tratamento adequado para uma rapariga/mulher que ousava contrariar o patriarcado primitivo estrutural). Comecei a responder aos 15 anos. Sentia sempre medo, uma raiva enclausurada, mas acima de tudo medo. E voltava a sentir que aquilo não estava certo.

Quando me mudei para Lisboa, em busca de uma carreira de atriz, piorou. Porque insistiam comigo, que se queria chegar a algum lado, então tinha de dormir com o encenador tal, ir beber copos ao bar X, seduzir não sei quem.

Sempre ouvi histórias sobre assédio, contadas por diversas amigas, um pouco por todo o lado: na rua, no trabalho, no ginásio. Sempre o abuso de poder sobre os corpos. Sempre a conivência de todos. Sempre a culpabilização das vítimas e a desculpabilização dos agressores. A leviandade com que estes abusos de poder sobre os corpos são vistos, têm consequências nefastas para quem, diariamente, de uma forma ou de outra, tem que aprender a viver com eles.

Todas estas experiências, que começaram em tão tenra idade, ainda que infligidas por outras crianças (não estariam elas a replicar o que viam os adultos fazer?), moldaram-me. Fizeram-me sentir vergonha do meu corpo. Fizeram-me sentir a força física e psicológica que os homens podiam, livremente, exercer sobre mim. Fizeram-me ter uma sexualidade reprimida. Não duvido que estas experiências de abusos sobre o meu corpo contribuíram para o aparecimento da minha distimia na infância e para que mais tarde aceitasse outros tipos de abuso sobre o meu corpo, que na realidade só senti como meu a partir dos 27 anos.

Nunca consenti nenhuma das vezes que me tocassem. E quando sofri abusos e violência psicológica, já era tão tarde, já tinha sofrido tantos abusos de poder quotidianos sobre o meu corpo (e sempre desvalorizados por todos os que me rodeavam) que só me apercebi deles depois do fim da relação. Todos sabiam o que se passava, mas ninguém ousou pôr a colher.

O medo e a vergonha silenciaram-me. Até hoje. É a primeira vez que partilho estas experiências publicamente.

E encorajo-vos a fazer o mesmo. A contar publicamente quando, onde e como vos afetou o abuso de poder sobre os vossos corpos.

Para que as nossas crianças não tenham mais de calar, sofrer, aceitar este abuso constante de poder patriarcal, machista, estrutural sobre os seus corpos.

Não nos vão calar. Nunca mais.

#EuTambém

#MeToo

#ContraOAbusoDePoder

#ContraOPatriarcado

#Nãoénão

#Silêncioénão

#Encolherdeombrosénão

#SóSiméSim

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